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Banco do Brasil (BBAS3) lucra R$ 3,9 bilhões no 2T26, mas alta não elimina preocupação com crédito

O Banco do Brasil voltou a apresentar crescimento do lucro no segundo trimestre de 2026, mas o balanço divulgado nesta semana deixou uma mensagem um pouco mais complexa do que o número principal pode fazer parecer. Entre abril e junho, o banco registrou lucro líquido ajustado de R$ 3,9 bilhões, resultado 3,3% superior ao obtido no mesmo período de 2025 e 13,9% acima do primeiro trimestre deste ano. A cifra também ficou acima da expectativa de aproximadamente R$ 3,78 bilhões dos analistas consultados pela Bloomberg.

Depois de vários trimestres em que a qualidade da carteira de crédito, principalmente no agronegócio, passou a dominar as discussões sobre o Banco do Brasil, a volta do crescimento do lucro traz algum alívio. Só que o balanço mostra que ainda existem problemas importantes para resolver. A inadimplência continua elevada, os atrasos começaram a aparecer com mais força também entre pessoas físicas e o banco ainda precisa entregar uma segunda metade de ano consideravelmente melhor para alcançar a projeção de lucro estabelecida para 2026.

Talvez seja justamente por isso que a reação do mercado tenha sido tão diferente daquilo que normalmente se esperaria depois de um resultado acima das projeções. Nesta quinta-feira, 13 de agosto, as ações BBAS3 fecharam em queda de 4,16%, a R$ 18,21, depois de passarem boa parte do dia pressionadas. O lucro veio melhor, mas investidores preferiram olhar para o risco da carteira, para a geração de capital e, principalmente, para o que pode acontecer nos próximos trimestres.

Lucro melhora e receitas do banco continuam mostrando força

Um dos pontos positivos do trimestre foi a margem financeira. O Banco do Brasil alcançou R$ 27,5 bilhões de margem financeira bruta, sustentada principalmente pelas receitas de crédito e pelo desempenho das operações voltadas às pessoas físicas. A tesouraria também ajudou bastante no resultado e gerou aproximadamente R$ 9 bilhões no trimestre, com crescimento tanto na comparação anual quanto em relação aos primeiros três meses do ano.

Para entender por que esse indicador importa, basta lembrar que a margem financeira representa, de maneira simplificada, uma parte importante do dinheiro que o banco consegue gerar com suas operações financeiras, incluindo a diferença entre aquilo que paga para captar recursos e o que recebe ao emprestá-los. Em um banco do tamanho do BB, mudanças nessa linha podem fazer bastante diferença no resultado final.

A carteira de crédito também continua enorme. O volume expandido ultrapassou R$ 1,3 trilhão em junho, crescendo 1,5% em 12 meses. Somente a carteira destinada a pessoas físicas atingiu R$ 357,6 bilhões, avanço anual de 4,4%, enquanto o crédito ao agronegócio chegou a R$ 421,6 bilhões.

Entre as operações voltadas ao consumidor, o crédito consignado privado ganhou destaque. O saldo relacionado ao consignado CLT chegou a aproximadamente R$ 15,7 bilhões, mostrando como essa modalidade passou rapidamente a ter peso dentro da estratégia do banco.

As receitas com prestação de serviços também avançaram. Elas chegaram a aproximadamente R$ 9,1 bilhões no trimestre, crescimento de 4,2% em relação ao mesmo período do ano passado. Administração de fundos, contas-correntes e operações de crédito e garantias ajudaram a sustentar essa expansão. Ao mesmo tempo, as despesas administrativas ficaram em R$ 10,1 bilhões, aumento anual de 4,1%, movimento que o banco relaciona principalmente aos investimentos em pessoas e tecnologia.

É uma combinação que mostra um Banco do Brasil ainda capaz de produzir receitas relevantes e manter os custos relativamente controlados. O problema está no outro lado da equação: parte cada vez maior do dinheiro emprestado está demorando mais para voltar.

Inadimplência continua sendo o ponto mais delicado

Se olharmos somente para o lucro, o segundo trimestre parece uma evolução clara em relação ao começo do ano. Quando observamos a qualidade do crédito, entretanto, a situação exige mais atenção.

O índice de inadimplência acima de 90 dias do Banco do Brasil chegou a 5,61% em junho, ante 5,05% no primeiro trimestre e 3,96% um ano antes. É um aumento expressivo para uma instituição com uma carteira superior a R$ 1,3 trilhão.

Durante boa parte de 2025 e início de 2026, quase toda a atenção estava concentrada no agronegócio. Desta vez, surgiu um segundo ponto de preocupação: as pessoas físicas.

A inadimplência acima de 90 dias nesse segmento chegou a aproximadamente 8,4%, contra 6,8% no trimestre anterior. Dentro dessa carteira, os cartões de crédito chamaram especialmente a atenção dos analistas. Os atrasos superiores a 90 dias chegaram a cerca de 14,6%, mais que dobrando e respondendo por uma parcela importante da deterioração observada durante o trimestre.

Esse é um dado que merece acompanhamento porque o Banco do Brasil vinha utilizando justamente o crescimento das operações com pessoas físicas como uma forma de diversificar suas receitas e reduzir a dependência de segmentos mais pressionados. Quanto maior o risco dessas novas operações, porém, maior tende a ser também a necessidade de provisionar dinheiro para possíveis perdas.

Na teleconferência de resultados, executivos do próprio Banco do Brasil reconheceram a necessidade de maior cautela na carteira de pessoas físicas. A administração indicou que algumas linhas tiveram crescimento em perfis com maior risco e que medidas de contenção já estão sendo adotadas.

Isso não significa que toda a carteira esteja deteriorando da mesma forma. Existem linhas mais seguras, clientes com menor risco e operações com garantia. O problema para o investidor é acompanhar se a piora observada agora é pontual ou se continuará aparecendo nos próximos balanços.

No agronegócio, que continua sendo uma das maiores exposições do Banco do Brasil, a inadimplência acima de 90 dias chegou a 6,27% em junho. A alta em relação ao trimestre anterior foi pequena, de 0,05 ponto percentual, indicando certa desaceleração da piora. Ao mesmo tempo, a taxa permanece muito acima dos 3,16% observados um ano antes.

Há, portanto, um sinal melhor na margem, mas ainda não o suficiente para afirmar que o problema foi resolvido.

O banco tenta reduzir essa pressão com renegociações e operações com garantias mais robustas. Segundo informações apresentadas pela administração nesta semana, até R$ 100 bilhões em créditos ligados ao agronegócio podem se enquadrar nas novas linhas de renegociação previstas pela Medida Provisória 1.376/2026. Desse montante, cerca de R$ 36,7 bilhões são créditos inadimplentes, enquanto aproximadamente R$ 63,5 bilhões correspondem a operações ainda adimplentes, mas que já foram prorrogadas ou renegociadas. O universo potencial envolve até 113 mil clientes.

O BB também informou que o programa BB Regulariza Agro já envolveu cerca de R$ 39,3 bilhões em empréstimos renegociados. Além disso, a instituição vem aumentando o uso de alienação fiduciária nas novas concessões rurais, uma forma de reforçar as garantias e diminuir o tamanho das perdas caso o pagamento não aconteça.

Esse talvez seja o principal ponto a observar no segundo semestre. Se as renegociações começarem a funcionar e a entrada de novos atrasos realmente perder força, o Banco do Brasil poderá reduzir gradualmente a quantidade de recursos que precisa separar para cobrir perdas. Caso contrário, o custo de crédito continuará consumindo uma parcela importante do lucro.

BBAS3: por que as ações caíram mesmo com lucro maior?

Para quem olha apenas o título do balanço, a reação das ações pode parecer estranha. O lucro cresceu, superou as projeções do mercado e avançou quase 14% em relação ao trimestre anterior. Mesmo assim, BBAS3 caiu mais de 4% nesta quinta-feira.

A explicação está na qualidade desse resultado e nas expectativas para os próximos meses.

Analistas ouvidos pelo mercado apontaram que parte da surpresa positiva veio de provisões jurídicas menores, controle de custos, efeitos tributários e outros itens que ajudaram o lucro do trimestre. Ao mesmo tempo, a formação de novos créditos problemáticos continuou elevada.

O retorno sobre o patrimônio líquido, uma das medidas mais acompanhadas para avaliar a rentabilidade dos bancos, ficou em 8,3% no segundo trimestre. O indicador melhorou em relação aos 7,3% registrados no trimestre anterior, mas continua em patamar relativamente baixo para os padrões históricos do próprio Banco do Brasil.

É justamente nessa comparação que o mercado começa a ficar mais exigente. Não basta simplesmente voltar a aumentar o lucro; investidores querem enxergar uma recuperação que consiga se sustentar ao longo de vários trimestres, com queda da inadimplência, redução do custo de crédito e melhora consistente da rentabilidade.

Outro ponto de preocupação citado por algumas casas de análise está na evolução do capital. O patrimônio líquido do banco caiu aproximadamente R$ 5 bilhões na comparação trimestral, principalmente por ajustes atuariais, enquanto os ativos fiscais diferidos cresceram. Para alguns analistas, esse movimento limita a capacidade do banco de transformar os resultados contábeis em crescimento mais forte do patrimônio tangível.

Por isso, o balanço pode ser resumido de uma maneira bastante simples: o segundo trimestre foi melhor do que o mercado temia, mas ainda não foi suficiente para provar que a recuperação do Banco do Brasil já está consolidada.

Banco mantém projeção de lucro de R$ 18 bilhões a R$ 22 bilhões

O Banco do Brasil manteve seu guidance para 2026. A projeção atual continua apontando para lucro líquido ajustado entre R$ 18 bilhões e R$ 22 bilhões no acumulado do ano. Essa faixa havia sido reduzida em maio, quando a expectativa anterior, de R$ 22 bilhões a R$ 26 bilhões, foi revisada diante da piora do risco de crédito, principalmente no agronegócio.

Depois de dois trimestres, entretanto, fica mais fácil entender o tamanho do desafio.

O BB acumulou aproximadamente R$ 7,3 bilhões de lucro líquido ajustado no primeiro semestre. Para alcançar pelo menos o piso da projeção anual, de R$ 18 bilhões, o banco precisará gerar cerca de R$ 10,7 bilhões de lucro nos últimos seis meses do ano. Para chegar ao teto de R$ 22 bilhões, seriam necessários aproximadamente R$ 14,7 bilhões no segundo semestre.

Ou seja, mesmo depois da melhora registrada entre abril e junho, o Banco do Brasil precisa acelerar bastante a geração de lucro nos próximos dois trimestres.

A situação do custo de crédito também merece atenção. A projeção atual do banco prevê de R$ 65 bilhões a R$ 70 bilhões para 2026. No primeiro semestre, essa despesa já alcançou aproximadamente R$ 37,3 bilhões. Isso significa que o segundo semestre precisa mostrar algum alívio para que a instituição permaneça confortavelmente dentro da faixa projetada.

Durante a teleconferência desta quinta-feira, o vice-presidente financeiro e de Relações com Investidores, Geovanne Tobias, indicou que o custo de crédito pode terminar o ano próximo da parte superior das projeções, enquanto o lucro pode ficar mais perto da parte inferior da faixa estabelecida. O comentário ajudou a aumentar a cautela dos investidores durante o pregão.

O banco, porém, ainda não anunciou nova revisão do guidance.

JCP de R$ 584,9 milhões para os acionistas

Junto com o resultado, o Banco do Brasil anunciou mais uma distribuição de Juros sobre Capital Próprio.

Serão pagos aproximadamente R$ 584,9 milhões em JCP, correspondentes a R$ 0,10245643978 por ação. Segundo as informações divulgadas, terão direito ao pagamento os acionistas posicionados em BBAS3 em 1º de setembro de 2026, e o crédito está previsto para 11 de setembro. O valor será atualizado pela taxa Selic entre as datas previstas pelo banco.

Com essa distribuição, o total destinado aos acionistas referente ao desempenho do primeiro semestre deverá chegar a aproximadamente R$ 1,79 bilhão.

Para quem acompanha BBAS3 principalmente pela renda passiva, esse é um ponto relevante. Ao mesmo tempo, é importante lembrar que a capacidade futura de pagamento de dividendos e JCP estará diretamente ligada à recuperação do lucro, à qualidade do crédito e à necessidade de preservar capital.

O Banco do Brasil continua sendo uma instituição extremamente lucrativa e com uma escala difícil de ser comparada. Uma carteira superior a R$ 1,3 trilhão, presença dominante no financiamento do agronegócio, milhões de clientes e capacidade de geração de receitas continuam sendo vantagens importantes. O balanço do segundo trimestre mostra, inclusive, que existe força nas receitas e que o lucro começou a reagir.

Mas 2026 ainda parece ser um ano de transição.

A diferença em relação a alguns meses atrás é que agora existem sinais de melhora em determinadas frentes. O lucro cresceu, a expansão da inadimplência do agro perdeu velocidade e a margem financeira continua forte. Por outro lado, surgiu uma deterioração mais evidente na carteira de pessoas físicas, principalmente nos cartões, e o custo de crédito segue elevado.

Por isso, talvez o número mais importante dos próximos balanços nem seja o lucro isoladamente. Será necessário acompanhar a quantidade de novos atrasos, o volume de provisões, a evolução das renegociações no agronegócio e principalmente se a inadimplência das pessoas físicas começa a estabilizar.

Se esses indicadores melhorarem, o Banco do Brasil terá condições de transformar o atual crescimento do lucro em uma recuperação mais consistente. Caso a inadimplência continue avançando, porém, parte importante da margem financeira poderá continuar sendo consumida pelas perdas esperadas de crédito.

O segundo trimestre, portanto, não resolveu a discussão em torno de BBAS3. Ele apenas mudou um pouco o cenário. O banco mostrou que consegue voltar a crescer o lucro mesmo em um ambiente difícil, mas também deixou claro que o grande teste da recuperação ficará para o segundo semestre de 2026.

Este conteúdo tem caráter informativo e educacional e não representa recomendação de compra ou venda de ações.

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