A proibição das apostas esportivas não significa apenas retirar marcas das camisas. Com centenas de milhões de reais envolvidos em patrocínios, clubes brasileiros terão de rever receitas, contratações, salários e investimentos justamente no momento em que começam a montar os orçamentos da próxima temporada.
Quem acompanha o futebol brasileiro provavelmente se acostumou a ver casas de apostas em praticamente todos os espaços possíveis: no centro das camisas, nas placas dos estádios, nas entrevistas, nos centros de treinamento, nas redes sociais dos clubes e até no nome oficial de algumas das principais competições do país. Em poucos anos, as chamadas bets deixaram de ser apenas anunciantes e se transformaram em uma das fontes mais importantes de receita comercial do futebol nacional. Por isso, a proibição das apostas de quota fixa anunciada pelo governo federal em setembro de 2026 criou um problema muito maior do que simplesmente encontrar outra marca para ocupar o uniforme.
A Medida Provisória nº 1.394, publicada em 25 de setembro de 2026, proibiu no Brasil a exploração, oferta e intermediação das apostas de quota fixa, atingindo tanto apostas relacionadas a eventos esportivos reais quanto jogos online. A medida também proibiu publicidade, propaganda, marketing e patrocínio ligados ao setor, determinando a retirada dos sinais de divulgação das empresas dentro do período estabelecido pela nova regra. Para o futebol, justamente essa parte da legislação produz o efeito mais imediato, já que contratos que estavam previstos para continuar por meses ou até anos passam a enfrentar uma realidade completamente diferente.
Levantamento divulgado pelo UOL aponta que 14 dos 20 clubes da Série A possuem casas de apostas como patrocinadoras máster e que os valores fixos conhecidos desses acordos somam aproximadamente R$ 910 milhões por ano. O número já seria suficientemente grande para provocar preocupação, mas não mostra toda a dimensão do problema. Muitos contratos possuem bônus relacionados a desempenho, exposição de marca, ativações comerciais e outras propriedades que vão além do espaço principal da camisa. Em alguns casos, portanto, o valor econômico total da parceria pode ser bem superior ao valor fixo divulgado.
Segundo informações reunidas pela CNN Brasil, as empresas de apostas investiram aproximadamente R$ 1,14 bilhão no futebol brasileiro em 2025, valor equivalente a cerca de 7,9% da receita total dos principais clubes. O percentual pode parecer administrável quando olhamos todo o faturamento de uma equipe, mas a situação muda quando analisamos somente as receitas comerciais e de marketing. Relatório da consultoria Convocados citado pela CNN estima que as bets representem aproximadamente um terço desse faturamento comercial, mostrando por que a mudança preocupa tanto dirigentes e departamentos financeiros.
O problema não é apenas perder o patrocinador
Quando se fala que os contratos máster das bets na Série A somam aproximadamente R$ 910 milhões, pode parecer que os clubes precisam apenas encontrar outras empresas interessadas e continuar normalmente. Na prática, essa substituição pode ser muito mais complicada. As casas de apostas entraram no futebol disputando agressivamente os espaços mais valiosos das camisas e ajudaram a elevar o preço dessas propriedades comerciais para patamares que poucos setores estavam dispostos a pagar anteriormente.
O Flamengo, por exemplo, aparece em levantamentos recentes com um dos maiores contratos do mercado. Dependendo das propriedades consideradas, os valores divulgados variam porque alguns cálculos levam em conta apenas a parcela fixa do patrocínio principal, enquanto outros incorporam bônus e outros ativos comerciais. Corinthians e Palmeiras também possuem contratos anuais que alcançam dezenas ou centenas de milhões de reais. Essa diferença na forma de contabilizar os acordos é importante porque explica por que números diferentes podem aparecer em reportagens sem que necessariamente exista contradição entre eles.
O desafio dos clubes será descobrir quanto esses mesmos espaços valerão sem a presença das empresas de apostas. Imagine vários dos maiores times brasileiros procurando simultaneamente um novo patrocinador principal. Flamengo, Corinthians, Palmeiras, São Paulo, Botafogo, Vasco, Fluminense, Cruzeiro, Santos e outras equipes passam a oferecer ao mercado propriedades de enorme exposição praticamente ao mesmo tempo. Do ponto de vista econômico, a oferta de espaços publicitários aumenta rapidamente, enquanto não existe garantia de que a quantidade de empresas dispostas a pagar centenas de milhões de reais crescerá na mesma proporção.
É perfeitamente possível que bancos, fintechs, varejistas, empresas de tecnologia, telecomunicações, montadoras, marketplaces e outras companhias aproveitem esse espaço. O ponto central, porém, não é apenas encontrar uma nova marca, mas descobrir quanto ela estará disposta a pagar. Um clube pode substituir um patrocinador que rendia R$ 100 milhões por outro que ofereça R$ 60 milhões. Nesse cenário, a camisa continua comercialmente ocupada, mas permanece um buraco de R$ 40 milhões no orçamento.
Como isso pode afetar contratações e salários
É justamente nesse momento que o assunto deixa de ser apenas esportivo e passa a ser uma questão de planejamento financeiro. Clubes montam seus orçamentos antes do início de cada temporada com base em expectativas de receitas de direitos de transmissão, bilheteria, programas de sócio-torcedor, premiações, patrocínios, transferências de jogadores e outras fontes. A partir desses números, as diretorias definem o tamanho da folha salarial, as contratações que podem realizar e os investimentos em estrutura.
O problema aparece quando uma receita considerada dentro desse planejamento desaparece depois que vários compromissos já foram assumidos. É semelhante ao que acontece com uma família que organiza seus gastos contando com determinada renda e descobre que passará a ganhar menos no mês seguinte: as parcelas, contratos e despesas fixas não desaparecem automaticamente. No futebol, essa diferença pode chegar a dezenas ou centenas de milhões de reais.
Caso um clube perca uma receita importante e não consiga substituí-la integralmente, existem algumas alternativas. É possível reduzir despesas, diminuir o número de contratações, negociar atletas, antecipar receitas futuras ou buscar crédito. Todas essas opções, porém, possuem consequências. Vender um jogador pode resolver o caixa de determinado ano, mas essa não é uma fonte de receita recorrente. Se o problema estrutural continuar na temporada seguinte, será necessário vender outro atleta ou encontrar uma nova solução.
A antecipação de receitas também oferece alívio imediato, mas reduz o dinheiro disponível no futuro. Quando um clube recebe hoje recursos que só entrariam daqui a dois ou três anos, resolve parte da pressão atual, mas começa a próxima temporada com receitas já comprometidas. É justamente por isso que a perda de contratos de longo prazo pode provocar problemas maiores do que simplesmente deixar de receber uma parcela mensal.
Segundo reportagem do UOL, o Corinthians defendia um período maior de adaptação e considerava que aproximadamente 90 dias seriam necessários para reorganizar sua estrutura comercial. O clube possui contrato de grande valor com uma empresa de apostas e já trabalhava com essa receita em seu planejamento. A nova regra, entretanto, estabeleceu um prazo muito menor para a retirada da publicidade, obrigando clubes a acelerar negociações e revisão de orçamento.
A situação acontece justamente quando as equipes começam a projetar a temporada de 2027. É nesta parte do ano que departamentos financeiros definem limites de gastos, diretorias de futebol avaliam contratações e contratos são renovados ou encerrados. Uma queda relevante nas receitas comerciais pode tornar algumas equipes mais cautelosas na próxima janela de transferências, principalmente aquelas que já possuem endividamento elevado ou pouca margem de caixa.
Categorias de base e futebol feminino também podem sentir o efeito
A discussão normalmente se concentra no elenco profissional masculino porque é onde estão os salários mais altos e as contratações mais caras, mas um clube de futebol possui uma estrutura muito maior. Categorias de base, futebol feminino, departamentos médicos, centros de treinamento, esportes olímpicos, funcionários administrativos, viagens, manutenção de instalações e projetos sociais também consomem recursos.
Clubes que criticaram a proibição afirmaram que parte das receitas das bets ajudava a financiar justamente essas áreas. Isso não significa que necessariamente haverá cortes generalizados, porque cada instituição decidirá de forma diferente como reorganizar seu orçamento. No entanto, quando ocorre uma redução importante de receita, áreas que dependem diretamente do caixa do clube podem entrar no processo de revisão de despesas.
O impacto proporcional também pode ser maior nos clubes menores. Para uma equipe com faturamento superior a R$ 1 bilhão, perder um contrato de algumas dezenas de milhões de reais é relevante, mas ainda existem outras fontes importantes de receita. Para um clube cujo orçamento anual é muito menor, um patrocínio de R$ 10 milhões ou R$ 20 milhões pode representar uma parcela decisiva das contas.
Na Série B, a exposição às empresas de apostas também é elevada. Levantamento apresentado pela CNN Brasil mostra que 13 dos 20 clubes possuem algum tipo de vínculo comercial com marcas do setor. Isso amplia a discussão para além dos gigantes da Série A e mostra que a reorganização comercial pode chegar a diferentes níveis do futebol nacional.
O efeito pode chegar ao mercado de jogadores
Existe ainda um possível impacto indireto sobre o mercado de transferências. Grandes clubes compram atletas de equipes médias, que por sua vez negociam com clubes menores. Parte importante do dinheiro circula dessa maneira dentro do futebol. Se as principais equipes reduzirem investimentos em contratações por causa de receitas menores, o volume de recursos movimentado entre clubes também pode cair.
Isso não significa que o mercado brasileiro de jogadores necessariamente entrará em crise. Existem receitas de televisão, competições internacionais, investidores de SAFs, premiações e vendas para o exterior que continuam movimentando valores expressivos. Mas a perda repentina de uma fonte comercial que cresceu muito nos últimos anos pode tornar algumas diretorias mais conservadoras.
Um clube que planejava investir R$ 150 milhões em reforços, por exemplo, pode decidir gastar R$ 100 milhões caso não consiga substituir integralmente um grande contrato de patrocínio. Essa diferença deixa de chegar também aos clubes que venderiam jogadores para ele. É dessa forma que uma mudança inicialmente concentrada no marketing pode se espalhar pelo restante da cadeia econômica do futebol.
Até as principais competições entram nessa reorganização
A presença das casas de apostas não estava limitada aos clubes. As principais competições brasileiras também possuem propriedades comerciais ligadas ao setor, incluindo acordos de naming rights. Isso significa que Campeonato Brasileiro, Copa do Brasil e outras propriedades esportivas terão de reorganizar seus contratos e buscar novas fontes de publicidade.
A mudança afeta clubes, competições, emissoras, agências de marketing, produtoras, influenciadores e empresas responsáveis por ativações comerciais. Por esse motivo, calcular o impacto olhando apenas os R$ 910 milhões dos patrocínios máster provavelmente subestima a dimensão econômica do setor dentro do futebol.
Ao mesmo tempo, é importante não transformar essa perda potencial em uma conclusão de que todo o dinheiro desaparecerá. Parte das propriedades será revendida, novas empresas entrarão no mercado e contratos serão renegociados. A verdadeira dúvida está no valor dessas novas negociações.
Se outras empresas aceitarem pagar números semelhantes aos oferecidos pelas bets, o impacto poderá ser temporário. Caso os novos contratos sejam significativamente menores, os clubes precisarão adaptar seus custos a uma nova realidade comercial.
O futebol brasileiro vai entrar em crise?
Os dados disponíveis não permitem afirmar que o futebol brasileiro entrará em colapso por causa do fim das bets. Os clubes possuem diversas outras fontes de receitas, e grandes equipes movimentam centenas de milhões ou até bilhões de reais anualmente. Direitos de transmissão, bilheteria, programas de sócio-torcedor, venda de atletas, premiações e patrocínios de outros setores continuarão existindo.
O problema está na velocidade da mudança. Se os contratos terminassem gradualmente ao longo de vários anos, os departamentos comerciais teriam tempo para buscar alternativas. Agora, muitos precisam fazer essa transição em poucas semanas, justamente quando começam a definir os gastos da próxima temporada.
Isso torna 2027 um ano particularmente importante para entender o verdadeiro impacto. A próxima janela de transferências poderá mostrar se os clubes reduzirão investimentos. Os novos contratos de patrocínio revelarão se as propriedades esportivas conseguirão manter os preços praticados durante a expansão das bets. E os balanços financeiros permitirão identificar quais instituições conseguiram substituir as receitas e quais precisaram realizar ajustes.
A mudança também coloca em evidência um princípio básico de finanças que vale tanto para empresas quanto para clubes de futebol: quanto maior a dependência de uma única fonte de receita, maior o risco quando essa fonte desaparece. Durante os últimos anos, as casas de apostas se tornaram tão importantes que passaram a ocupar uma parcela relevante do planejamento comercial de diversas equipes.
Agora, o futebol brasileiro terá de descobrir quanto suas camisas, competições e propriedades digitais realmente valem sem esse setor disputando agressivamente os espaços.
O resultado pode produzir uma transformação importante no modelo comercial dos clubes. Talvez outros segmentos econômicos assumam parte desse espaço. Talvez os valores dos patrocínios diminuam. Talvez surjam novos modelos de monetização baseados em torcedores, conteúdo digital, estádios e licenciamento.
O que já está claro é que o assunto vai muito além de retirar uma marca de uma camisa.
A proibição das bets colocou centenas de milhões de reais em receitas sob revisão e obrigou clubes a reabrir planilhas que, até poucos dias atrás, pareciam praticamente definidas para a próxima temporada.
Por isso, a principal pergunta para o futebol brasileiro agora não é apenas quem substituirá as casas de apostas, mas quanto os novos patrocinadores estarão dispostos a pagar e como os clubes reorganizarão seus gastos caso esse valor seja menor.
Essa resposta começará a aparecer nos próximos meses e pode mudar de maneira significativa o planejamento financeiro da temporada de 2027.
Fontes consultadas: Medida Provisória nº 1.394/2026; Governo Federal; CNN Brasil; UOL; ge; levantamentos sobre patrocínios e manifestações públicas de clubes e entidades esportivas.
Tags: Futebol Brasileiro, Bets, Patrocínios, Finanças dos Clubes, Brasileirão, Economia do Futebol, Apostas Esportivas, Planejamento Financeiro
Meta descrição: Proibição das bets coloca cerca de R$ 910 milhões em patrocínios da Série A em revisão e obriga clubes a refazer orçamento, contratações e planejamento para 2027.










