Empresas ligadas ao setor de jogos e apostas já responderam por R$ 9,9 bilhões em receitas federais entre janeiro e agosto. Com a proibição das bets, estimativa aponta perda potencial superior a R$ 5 bilhões apenas no último trimestre, mas o cálculo depende de várias hipóteses e não representa uma projeção oficial do governo.
A decisão do governo federal de proibir as bets no Brasil não muda apenas a rotina de milhões de apostadores, os contratos de patrocínio de clubes de futebol e o mercado de publicidade. Ela também retira das contas públicas uma fonte de arrecadação que cresceu rapidamente desde que o mercado regulado começou a funcionar plenamente, em janeiro de 2025.
Dados da Receita Federal levantados pela CNN Brasil mostram que empresas classificadas na atividade de exploração de jogos de azar e apostas foram responsáveis por R$ 9,914 bilhões em arrecadação federal entre janeiro e agosto de 2026. No mesmo período de 2025, haviam sido R$ 5,857 bilhões. A diferença representa crescimento real de aproximadamente 69,25%.
Agora, com a Medida Provisória nº 1.394/2026 proibindo as apostas de quota fixa em todo o território nacional, essa receita tende a cair fortemente.
A estimativa apresentada pela CNN aponta que a União poderia deixar de arrecadar cerca de R$ 5,25 bilhões entre outubro e dezembro de 2026, caso o ritmo observado durante os primeiros oito meses continuasse e a sazonalidade verificada em 2025 se repetisse. Isso representaria aproximadamente R$ 1,75 bilhão por mês.
É um número expressivo, principalmente porque surge justamente em um momento no qual o governo ainda administra contingenciamentos para cumprir suas metas fiscais.
Mas existe um cuidado fundamental: R$ 5,25 bilhões não são uma perda já confirmada nem uma estimativa oficial da Receita Federal.
Trata-se de uma simulação baseada no comportamento anterior da arrecadação.
E entender como essa conta foi construída é essencial para avaliar corretamente o impacto do fim das bets sobre as finanças públicas.
De onde surgem os R$ 5,25 bilhões que o governo pode deixar de arrecadar?
O cálculo parte de dois elementos.
O primeiro é o forte crescimento da arrecadação do setor em 2026.
Entre janeiro e agosto deste ano, empresas classificadas pela Receita Federal na atividade econômica relacionada à exploração de jogos de azar e apostas geraram R$ 9,914 bilhões em receitas federais. No mesmo período de 2025, foram aproximadamente R$ 5,857 bilhões.
Isso representa crescimento real de 69,25%.
O segundo elemento é a sazonalidade.
Segundo a análise da CNN com base nos dados da Receita, outubro, novembro e dezembro representaram aproximadamente 31% de toda a arrecadação anual do segmento em 2025.
Se essa mesma concentração ocorresse novamente em 2026 e o crescimento de 69,25% observado até agosto continuasse, a arrecadação federal do setor no último trimestre poderia chegar a aproximadamente R$ 5,25 bilhões.
Dividindo esse montante pelos três meses, chega-se a cerca de R$ 1,75 bilhão mensais.
É daí que surge a afirmação de que o fim das bets pode retirar mais de R$ 5 bilhões da arrecadação federal ainda em 2026.
Mas existem várias razões pelas quais o valor efetivamente perdido pode ser diferente.
Primeiro, as empresas ainda operam durante um período de transição. A medida proíbe imediatamente novos depósitos, mas os usuários podem acessar as plataformas e retirar seus saldos até 5 de outubro. A partir da zero hora de 6 de outubro, sites e aplicativos deverão ser bloqueados no Brasil.
Além disso, tributos são recolhidos em momentos diferentes da realização das operações. Parte da atividade ocorrida em setembro ou no início de outubro poderá aparecer na arrecadação posteriormente.
Há ainda uma variável política e legislativa: uma medida provisória produz efeitos imediatamente, mas precisa ser analisada pelo Congresso Nacional. Alterações futuras no texto podem modificar também o impacto econômico.
Portanto, a cifra de R$ 5,25 bilhões deve ser interpretada como um cenário de receita que poderia existir caso o mercado permanecesse funcionando normalmente, e não como um valor que já tenha desaparecido dos cofres públicos.
Existe ainda outra cautela técnica.
Os dados utilizados são referentes à classificação econômica de “exploração de jogos de azar e apostas”. Isso significa que o número é mais amplo do que simplesmente uma linha contábil chamada “imposto das bets”.
Ele reúne tributos recolhidos por empresas enquadradas nessa atividade econômica.
Essa diferença é importante para evitar a impressão de que existia um único imposto de quase R$ 10 bilhões especificamente sobre apostas esportivas.
Por que as bets passaram a gerar tanto dinheiro para os cofres públicos?
O mercado regulado criou diversas fontes de receita para o Estado.
Desde 1º de janeiro de 2025, somente empresas autorizadas pela Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda passaram a poder oferecer apostas de quota fixa nacionalmente. As plataformas autorizadas utilizavam domínios terminados em “.bet.br”.
Essas empresas não pagavam apenas uma taxa específica para operar.
O Ministério da Fazenda explica que operadores também estavam sujeitos a tributos empresariais tradicionais. Entre eles estavam PIS e Cofins, além de Imposto de Renda da Pessoa Jurídica e Contribuição Social sobre o Lucro Líquido, conforme o regime tributário aplicável. Também existiam destinações específicas relacionadas à receita das apostas.
A legislação do setor ainda estabelecia repartições específicas do produto da arrecadação das apostas, direcionando recursos para diferentes finalidades públicas. Alterações aprovadas em 2026 também passaram a destinar parcela ao Fundo para Aparelhamento e Operacionalização das Atividades-fim da Polícia Federal, o Funapol.
Além disso, cada empresa autorizada precisou pagar uma outorga de R$ 30 milhões, válida por cinco anos e permitindo a utilização de até três marcas comerciais.
Essa é uma receita diferente dos tributos mensais.
Enquanto impostos e contribuições dependem da atividade econômica, a outorga foi paga previamente para obtenção da autorização.
Por isso, a discussão sobre o impacto fiscal do fim das bets possui pelo menos duas dimensões.
A primeira envolve a perda de arrecadação futura decorrente da interrupção da atividade.
A segunda envolve os R$ 2,55 bilhões pagos em outorgas pelas 85 empresas autorizadas — valores que algumas entidades do setor já indicaram que poderão tentar discutir judicialmente após a extinção das autorizações.
Ou seja: ao mesmo tempo em que o governo deixa de receber tributos futuros, poderá ainda enfrentar ações tentando recuperar parte de valores arrecadados anteriormente.
Isso não significa que a União necessariamente terá que devolver esse dinheiro. A própria MP estabelece que a extinção das autorizações não gera automaticamente direito à restituição da outorga ou indenização.
Mas mostra como o impacto financeiro da decisão ultrapassa os R$ 5 bilhões estimados para os últimos meses deste ano.
Quanto R$ 5 bilhões representam para as contas do governo?
Quando comparado à arrecadação total do governo federal, o mercado de apostas não é uma das maiores fontes de receita do país.
A Receita Federal informou que somente entre janeiro e agosto de 2026 a arrecadação federal total alcançou R$ 2,112 trilhões. Em agosto, foram R$ 235,566 bilhões.
Portanto, os quase R$ 10 bilhões associados ao segmento de jogos e apostas representam uma parcela relativamente pequena diante de toda a estrutura tributária brasileira.
Mas isso não significa que R$ 5 bilhões sejam irrelevantes.
Nas contas públicas, o problema normalmente está na margem.
Poucos dias antes da proibição das bets, o governo publicou o Relatório de Avaliação de Receitas e Despesas Primárias referente ao quarto bimestre de 2026.
O documento resultou em R$ 13,6 bilhões de contingenciamento, necessário para cumprimento do limite inferior da meta de resultado primário. Somando contingenciamento e bloqueio, a contenção total de despesas ficou em aproximadamente R$ 16,1 bilhões.
A comparação ajuda a entender a dimensão do problema.
Uma perda de arrecadação superior a R$ 5 bilhões não muda sozinha todo o orçamento federal, mas é grande o suficiente para influenciar as próximas revisões das contas públicas.
Existe inclusive uma coincidência importante de datas.
O relatório fiscal do quarto bimestre foi divulgado em 24 de setembro de 2026. A proibição das bets foi formalizada no dia seguinte, 25 de setembro.
Pela sequência temporal, é razoável concluir que o relatório publicado no dia 24 não poderia incorporar integralmente os efeitos fiscais de uma medida que somente seria formalmente adotada no dia seguinte.
Isso significa que eventuais impactos deverão aparecer nas próximas revisões das receitas e despesas do governo.
Mas também é importante evitar uma conclusão automática do tipo: “o governo perdeu R$ 5 bilhões e terá que cortar exatamente R$ 5 bilhões”.
O orçamento não funciona dessa forma.
Outras receitas podem superar as previsões, despesas podem ser revistas e alterações legislativas podem modificar o resultado.
O próprio comportamento da arrecadação em 2026 vinha sendo positivo. Entre janeiro e agosto, a arrecadação federal acumulada apresentou crescimento real de 7,12% em comparação ao mesmo período do ano anterior.
Portanto, o efeito final da proibição dependerá do conjunto das contas públicas.
O governo abre mão de impostos para tentar reduzir um custo maior?
Essa é provavelmente a discussão econômica mais importante por trás da decisão.
Se as bets arrecadavam bilhões em impostos, por que o governo decidiu encerrá-las?
A justificativa apresentada pelo Executivo não está baseada apenas na arrecadação.
Ao anunciar a proibição, o governo argumentou que as apostas também produziam custos sociais e econômicos relacionados a endividamento, dependência, saúde mental, perda de produtividade e comprometimento da renda familiar.
O Ministério da Justiça informou, durante o anúncio do pacote, que mais de 1,3 milhão de brasileiros já haviam solicitado autoexclusão das plataformas, mecanismo utilizado por pessoas que querem impedir o próprio acesso aos serviços de apostas. Segundo os dados apresentados pelo governo, 51% desses usuários declararam relação direta com problemas de saúde.
O governo também citou levantamento que estima em aproximadamente R$ 38,8 bilhões por ano o custo social das apostas eletrônicas, considerando perda de produtividade, afastamentos do trabalho e impactos sobre serviços de saúde.
Esses valores, entretanto, não devem ser comparados diretamente com os R$ 5,25 bilhões de arrecadação potencial.
São cálculos de naturezas diferentes.
Um mede receitas tributárias potenciais.
O outro tenta estimar impactos econômicos e sociais indiretos.
As metodologias também são distintas.
Ainda assim, os números mostram o dilema enfrentado por qualquer governo ao regular atividades que geram receita tributária, mas também podem produzir externalidades negativas.
Do ponto de vista puramente fiscal, permitir uma atividade regulada significa poder tributá-la.
Do ponto de vista social, porém, a pergunta é se a arrecadação compensa os custos associados.
Existe ainda um terceiro cenário: a migração de apostadores para plataformas clandestinas.
Se uma parte importante das apostas continuar sendo realizada em sites estrangeiros ou ilegais, o governo poderá enfrentar o pior dos dois mundos: perder arrecadação das empresas autorizadas sem eliminar completamente as apostas.
A nova política tenta evitar esse cenário por meio de bloqueios tecnológicos e financeiros.
O governo anunciou que sites e aplicativos serão bloqueados e que transações ligadas às plataformas ilegais também serão combatidas. Um comitê interinstitucional reúne órgãos como Polícia Federal, Banco Central, Receita Federal, Ministério da Fazenda e Anatel.
A eficácia dessas medidas será decisiva para determinar o resultado econômico real da proibição.
O que acontece agora com a arrecadação das bets?
A partir de agora, três números precisam ser observados.
O primeiro será a arrecadação de setembro, que mostrará como o setor se comportou imediatamente antes da proibição.
O segundo será outubro.
Como as plataformas terão operações encerradas no início do mês, a queda deverá começar a aparecer progressivamente nos dados tributários.
O terceiro será o fechamento de 2026.
Somente com os dados consolidados será possível calcular quanto a União efetivamente deixou de arrecadar.
Também será necessário acompanhar as próximas avaliações bimestrais de receitas e despesas do governo.
Se a perda de receita for relevante e não for compensada por outras fontes, poderá haver necessidade de ajustes fiscais adicionais.
Por outro lado, se a arrecadação geral continuar crescendo acima das previsões, parte do impacto poderá ser absorvida.
Há também o Congresso Nacional.
A Medida Provisória nº 1.394 produz efeitos imediatamente, mas ainda precisa ser analisada pelo Legislativo. Portanto, o formato definitivo da proibição ainda pode mudar durante a tramitação.
É justamente essa incerteza que torna precipitado afirmar que o governo já perdeu R$ 5,25 bilhões.
O valor representa uma receita que poderia ser arrecadada caso o comportamento observado anteriormente continuasse.
Não representa dinheiro que já estava garantido no caixa.
A distinção é importante.
O que já sabemos é que o setor cresceu rapidamente como fonte de arrecadação.
Entre janeiro e agosto, foram aproximadamente R$ 9,9 bilhões, contra R$ 5,8 bilhões no mesmo período de 2025.
O que ainda não sabemos é quanto o mercado teria gerado até dezembro se continuasse funcionando normalmente — e quanto dessa receita poderá ser substituída.
A estimativa de R$ 5,25 bilhões ajuda a dimensionar o tamanho da decisão, mas não encerra a discussão.
O verdadeiro impacto dependerá de três fatores: quanto o governo deixará efetivamente de arrecadar, quanto conseguirá economizar ao reduzir os impactos sociais atribuídos às apostas e quanto do mercado migrará para operações clandestinas.
A proibição das bets, portanto, cria uma espécie de teste econômico em escala nacional.
Até agora, o debate esteve concentrado principalmente nos apostadores, nas empresas e nos clubes de futebol.
Nos próximos meses, outra pergunta deverá ganhar importância:
quanto o fim das bets realmente custará aos cofres públicos e esse custo será maior ou menor do que os problemas econômicos que o governo espera combater com a proibição?
A resposta só começará a aparecer quando os próximos dados da Receita Federal forem divulgados.
Fontes consultadas: Receita Federal, Ministério da Fazenda, Ministério da Justiça e Segurança Pública, Tesouro Nacional, Ministério do Planejamento e Orçamento, legislação federal e CNN Brasil.
Tags: Bets, Arrecadação Federal, Economia, Finanças Públicas, Impostos, Apostas Esportivas, Governo Federal, Orçamento Público
Meta descrição: Proibição das bets pode reduzir em cerca de R$ 5,25 bilhões a arrecadação federal no fim de 2026. Entenda de onde vem a estimativa, quanto o setor já pagou em tributos e os possíveis efeitos nas contas públicas.










