O Brasil chegou perto da marca de 2 milhões de pessoas trabalhando por meio de aplicativos e plataformas digitais. Os dados mais recentes do IBGE ajudam a entender uma contradição que aparece diariamente nas ruas: motoristas, entregadores e outros profissionais conectados podem até receber mais no total do mês, mas trabalham por mais horas e ganham menos por hora do que trabalhadores parecidos que não dependem das plataformas.
Em 2025, cerca de 1,959 milhão de pessoas estavam nessa forma de trabalho, segundo a pesquisa divulgada pelo instituto. Em média, os trabalhadores de aplicativos cumpriam uma jornada de 44,7 horas por semana, contra 39,3 horas entre os não plataformizados. O rendimento por hora era de R$ 16,20, enquanto o outro grupo recebia R$ 18,40. A diferença de 12% mostra que olhar apenas o valor que entra na conta pode criar uma impressão enganosa sobre a verdadeira remuneração.
Isso acontece porque a renda divulgada pelo aplicativo normalmente é bruta. Dela ainda precisam sair combustível ou energia, manutenção, pneus, seguro, financiamento ou aluguel do veículo, internet, alimentação durante a jornada, impostos e contribuição previdenciária. Também existe o tempo sem corrida, sem entrega ou esperando um chamado, que ocupa o dia, mas nem sempre aparece como hora remunerada.
Entender por que os trabalhadores de aplicativos no Brasil trabalham mais e ganham menos por hora não significa negar a importância dessa fonte de renda. Para muitas famílias, as plataformas abriram uma porta rápida em momentos de desemprego, complementaram o orçamento e ofereceram alguma liberdade de horário. O problema surge quando flexibilidade é confundida com lucro garantido e quando o trabalhador não calcula o custo real da própria atividade.
O que os novos dados do IBGE revelam
A pesquisa do IBGE considera diferentes tipos de plataforma, incluindo transporte particular de passageiros, entrega de comida e produtos, prestação de serviços gerais ou profissionais e outras atividades intermediadas digitalmente. O número de 1,959 milhão representa uma força de trabalho grande o suficiente para movimentar consumo, combustível, oficinas, seguros, restaurantes, comércio eletrônico e serviços em todo o país.
O perfil continua majoritariamente masculino. Segundo os dados divulgados, homens formam ampla maioria do grupo, especialmente no transporte e nas entregas. A concentração não acontece por acaso. Segurança nas ruas, responsabilidade pelo cuidado dos filhos, acesso a veículo e características de cada atividade influenciam quem consegue permanecer muitas horas conectado. Isso mostra que a suposta liberdade de horário não é vivida da mesma forma por todos.
Outro dado central é a jornada semanal. Os trabalhadores plataformizados chegaram a 44,7 horas em média, 5,4 horas a mais que os não plataformizados. Essa diferença equivale a quase um dia adicional de trabalho por semana. Em algumas atividades, a pessoa precisa circular justamente nos horários de maior demanda, como manhã cedo, almoço, fim da tarde, noite e fins de semana. Entre um pico e outro, pode existir um intervalo que não é descanso verdadeiro, pois o trabalhador continua disponível e longe de casa.
O rendimento mensal pode parecer relativamente melhor porque há mais horas trabalhadas. Porém, quando o IBGE divide o rendimento pelo tempo, aparece o valor de R$ 16,20 por hora, 12% abaixo dos R$ 18,40 recebidos, em média, por trabalhadores semelhantes fora das plataformas. E esse valor ainda não revela todas as despesas operacionais individuais. Na prática, o lucro por hora pode ser consideravelmente menor para quem arca com veículo e manutenção.
A informalidade é outro ponto de alerta. A taxa entre trabalhadores de aplicativos permanece muito alta, e a proporção que contribui para a Previdência é bem menor que a observada no grupo não plataformizado. Quem não contribui pode ficar sem cobertura adequada em caso de doença, acidente, incapacidade e maternidade, além de acumular dificuldades para a aposentadoria. Para um motorista ou entregador exposto ao trânsito todos os dias, esse risco não é abstrato.
Os números também mostram que o aplicativo não é um setor isolado da economia. Muitos profissionais combinam mais de uma plataforma, alternam transporte e entrega ou usam o trabalho digital para completar outra renda. Por isso, a estatística não deve ser interpretada como se todos tivessem a mesma rotina. Há quem trabalhe poucas horas por semana e quem dependa integralmente dessa atividade para pagar aluguel, alimentação e prestação do veículo.
As plataformas oferecem tecnologia, acesso a clientes, mapa, sistema de pagamento e organização de demanda. Em troca, definem ou influenciam preços, taxas, critérios de distribuição de chamadas, notas e incentivos. O trabalhador pode escolher quando ligar o aplicativo, mas não controla todas as condições do serviço. Essa combinação de autonomia parcial e dependência econômica está no centro do debate sobre regulamentação.
A diferença entre cidades também é grande. Capitais com longas distâncias, trânsito intenso e combustível caro podem gerar faturamento alto e custo igualmente elevado. Municípios menores talvez tenham despesas menores, porém menos chamadas. Por isso, a média nacional é um retrato importante, mas não substitui a conta individual. Dois motoristas com o mesmo faturamento podem terminar o mês com lucros muito diferentes.
Os dados devem ainda ser lidos com uma mudança de perspectiva: o tempo é um custo. Se uma pessoa precisa permanecer disponível durante 12 horas para completar oito horas de corridas e entregas, as quatro horas restantes não podem desaparecer do cálculo. Elas reduzem convivência familiar, estudo, descanso ou a possibilidade de outro trabalho. Medir apenas o período em movimento favorece uma impressão artificial de produtividade.
Por que renda bruta não é o que realmente fica no bolso
Imagine um motorista que vê R$ 6 mil de faturamento no aplicativo ao fim do mês. O número impressiona, mas não é salário líquido. Se ele gastou R$ 1.800 em combustível, R$ 500 em manutenção e pneus, R$ 1.200 no financiamento ou aluguel do carro, R$ 250 em seguro, R$ 120 em internet e celular e R$ 300 em alimentação extra, já comprometeu R$ 4.170. Restariam R$ 1.830 antes de impostos, Previdência e reserva para períodos sem trabalho.
O exemplo varia muito conforme cidade, veículo, tipo de combustível, distância, trânsito e horários. Um carro próprio quitado tem custo diferente de um veículo alugado, mas não é gratuito: ele perde valor a cada quilômetro. Essa depreciação aparece quando chega a hora de vender ou trocar o automóvel. Se não for incluída na conta, o trabalhador pode acreditar que lucrou mais do que realmente lucrou.
Para entregadores de bicicleta ou moto, a lógica é semelhante. A bicicleta exige peças, pneus, freios e proteção. A moto consome combustível, óleo e manutenção e envolve risco de acidente. Mochila, capa de chuva, capacete, suporte de celular e bateria externa também têm vida útil. Pequenos custos separados parecem inofensivos, mas somados ao longo do mês reduzem bastante o ganho.
O cálculo mais útil é o lucro líquido por hora. Primeiro, some tudo o que entrou em todas as plataformas, incluindo bônus e gorjetas. Depois, subtraia despesas variáveis, custos fixos mensais, impostos e uma reserva para manutenção. Por fim, divida o resultado por todas as horas dedicadas ao trabalho, não apenas pelo tempo em corrida. Isso inclui deslocamento até áreas de demanda, espera, abastecimento e retorno para casa.
Uma planilha simples pode ter as colunas data, horas on-line, quilômetros rodados, faturamento, combustível, pedágio, alimentação, manutenção estimada e lucro. Ao final de quatro semanas, o trabalhador consegue comparar dias e horários. Talvez a sexta-feira à noite gere faturamento alto, mas também maior gasto e risco. Talvez uma região distante pague melhor por corrida, porém deixe o motorista sem passageiro na volta.
Os incentivos precisam ser avaliados com a mesma frieza. Uma meta que promete R$ 100 depois de várias corridas pode levar a horas extras, deslocamentos ruins ou condução cansada. O bônus só é vantajoso se o lucro adicional superar todos os custos e não comprometer a segurança. Dirigir com sono ou aceitar uma rota perigosa para completar uma sequência transforma um benefício pequeno em risco enorme.
Também é preciso evitar financiar um veículo baseado apenas no faturamento de um mês bom. Demanda, tarifa, regras e quantidade de trabalhadores podem mudar. Uma prestação de quatro ou cinco anos permanece mesmo quando o aplicativo reduz promoções ou quando o motorista adoece. O ideal é simular meses fracos, incluindo seguro, manutenção, documentação e uma reserva para imprevistos.
Outra conta esquecida é o retorno do veículo vazio. Uma corrida longa pode parecer excelente no aplicativo, mas deixar o motorista numa área sem demanda. Se ele percorrer 20 quilômetros sem passageiro para voltar, precisa atribuir esse custo à corrida anterior. O mesmo vale para pedágio, estacionamento e tempo de espera em aeroportos ou restaurantes. Conhecer o custo por quilômetro ajuda a recusar serviços que geram movimento, mas não lucro.
Para calcular esse custo, some os gastos mensais do veículo e divida pelos quilômetros totais, incluindo trajetos pessoais quando eles também causam desgaste. Acrescente uma estimativa de depreciação e uma margem para manutenção futura. Depois, compare com o valor efetivo recebido por quilômetro e por hora. A conta não precisa ser perfeita no primeiro mês; ela melhora à medida que notas e registros se acumulam.
Jornada longa, proteção social baixa e os riscos invisíveis
Trabalhar mais horas não é apenas uma questão de cansaço. A jornada prolongada no trânsito aumenta exposição a acidentes, violência, ruído, calor e estresse. A atenção diminui quando faltam pausas, sono e alimentação adequada. O trabalhador pode se sentir pressionado a continuar porque cada minuto desconectado parece dinheiro perdido, principalmente quando existe uma conta vencendo.
Esse mecanismo produz um ciclo difícil: o rendimento por hora é baixo, então a pessoa aumenta a jornada; mais horas aceleram o desgaste do veículo e elevam custos; os custos exigem ainda mais horas. Sem acompanhamento, o trabalhador pode terminar o mês com grande movimentação bancária e pouco patrimônio. O carro ou a moto se desgastam, a dívida continua e não há reserva.
A contribuição ao INSS merece atenção. O trabalhador por conta própria pode contribuir como segurado individual, e quem se enquadra nas regras pode avaliar a formalização como microempreendedor individual nas ocupações permitidas. Cada opção tem alíquota, benefícios e limitações. Antes de escolher, é recomendável usar os canais oficiais do Meu INSS, do Portal do Empreendedor ou buscar orientação contábil, porque recolher de forma errada pode não produzir o resultado esperado.
Proteção social não é apenas aposentadoria distante. Contribuições regulares podem dar acesso, conforme carência e requisitos, a benefícios por incapacidade, salário-maternidade e pensão para dependentes. Para quem vive do próprio corpo e de um veículo, ficar semanas sem renda após um acidente pode destruir o orçamento. Um seguro adequado e uma reserva financeira complementam, mas não substituem automaticamente a Previdência.
A saúde mental também entra nessa conta. Avaliações de clientes, bloqueios, mudanças de regra e renda imprevisível criam ansiedade. A pessoa pode trabalhar em horários que a afastam da família e reduzir o descanso para perseguir uma meta. Estabelecer um limite diário, programar pausas e acompanhar o lucro real ajuda a recuperar algum controle sobre a rotina.
Do lado das plataformas, transparência é fundamental. O trabalhador precisa saber quanto o cliente pagou, quanto foi retido, quais critérios afetam a distribuição de chamadas e como contestar bloqueios. No debate regulatório, aparecem temas como remuneração mínima, contribuição previdenciária, seguro, segurança, negociação coletiva e preservação da flexibilidade. Não existe solução simples, mas os dados oficiais mostram que ignorar o problema também tem custo.
Para a sociedade, preços muito baixos podem esconder despesas transferidas ao trabalhador. Uma entrega barata não elimina combustível, manutenção e tempo; apenas define quem paga. Ao mesmo tempo, aumentos bruscos podem reduzir demanda e renda. Qualquer regra precisa equilibrar proteção, viabilidade dos serviços e diversidade de situações, ouvindo trabalhadores que dependem integralmente dos aplicativos e aqueles que usam a plataforma apenas como complemento.
Como tornar o trabalho por aplicativo uma renda mais sustentável
O primeiro passo é separar faturamento de lucro. Use uma conta ou carteira específica para receber das plataformas e transfira para o orçamento doméstico apenas o valor que restou após reservar os custos. Essa separação impede que o dinheiro da manutenção seja gasto no supermercado e revela com mais clareza se a atividade está compensando.
Crie três reservas: manutenção, emergência pessoal e impostos ou contribuições. A reserva de manutenção deve receber um valor por quilômetro ou um percentual do faturamento. A reserva de emergência protege a família quando não é possível trabalhar. A terceira evita que obrigações anuais, documentação ou tributos virem dívida.
Calcule uma meta de lucro por hora, não apenas uma meta de faturamento diário. Se o resultado líquido ficar abaixo do mínimo necessário, analise rotas, horários e plataforma. Às vezes, trabalhar duas horas a menos em um período fraco e concentrar energia nos horários de maior demanda melhora o lucro e a saúde. Em outras situações, será necessário buscar outra atividade complementar ou qualificação para reduzir a dependência.
Registre acidentes, cobranças, bloqueios e comunicações importantes. Guarde telas, recibos e extratos. Em caso de conflito, documentos ajudam a procurar o suporte da plataforma, órgãos de defesa do consumidor quando aplicável, Justiça ou orientação jurídica. Nunca dependa de uma única conversa no chat que pode desaparecer.
Proteja a segurança digital. Não compartilhe código recebido por SMS, senha ou tela do celular. Desconfie de supostos funcionários que pedem transferência para liberar prêmio ou recuperar conta. Use autenticação em duas etapas e evite aplicativos não oficiais. Um golpe pode roubar não só o saldo, mas também a identidade e o acesso à ferramenta de trabalho.
Diversificar clientes e habilidades também reduz vulnerabilidade. Um profissional pode usar mais de uma plataforma dentro das regras, construir uma clientela direta quando a atividade permitir, aprender manutenção básica, atendimento, logística ou gestão e buscar cursos gratuitos. O objetivo não é trabalhar em todos os lugares ao mesmo tempo, mas evitar que um bloqueio inesperado elimine toda a renda do mês.
A família precisa conhecer a realidade financeira da atividade. Se todos enxergam apenas o faturamento, podem assumir despesas incompatíveis com o lucro. Uma conversa mensal sobre custos, dívidas, reserva e metas distribui expectativas. Também ajuda a planejar dias de descanso sem culpa, porque a pausa já foi considerada no orçamento.
Cuide da própria jornada. Pausas, hidratação, alimentação e sono não são luxo; reduzem acidentes e preservam a capacidade de gerar renda. Defina um teto de horas, especialmente à noite. Se o corpo dá sinais de exaustão, continuar pode custar muito mais do que a próxima corrida.
Os quase 2 milhões de trabalhadores de aplicativos fazem parte da economia real do país. Eles levam pessoas ao trabalho, entregam alimentos, movimentam o comércio e conectam clientes a serviços. Os dados do IBGE não diminuem essa contribuição. Pelo contrário: mostram que ela precisa ser medida de forma honesta, considerando tempo, despesas e proteção.
A conclusão é direta. O aplicativo pode ser oportunidade, mas não deve ser tratado como uma máquina de dinheiro. Quem conhece o custo por quilômetro, o lucro por hora e os riscos consegue tomar decisões melhores. E políticas públicas ou regras empresariais só serão efetivas se partirem dessa realidade: trabalhar mais não significa necessariamente ganhar melhor.
Fontes consultadas
IBGE: dados sobre trabalho por plataformas em 2025 e comparação com a pesquisa de 2024; Portal do Empreendedor: orientações oficiais para MEI; Meu INSS: informações sobre contribuição e proteção previdenciária. Consulta realizada em 6 de setembro de 2026.










