O Pix já transformou a forma como os brasileiros pagam contas, transferem dinheiro e fazem compras. Em poucos anos, a ferramenta deixou de ser apenas uma alternativa à TED e ao boleto para se tornar parte do cotidiano de milhões de pessoas. Agora, o sistema criado pelo Banco Central pode dar um passo ainda maior: funcionar de maneira integrada à infraestrutura de pagamentos instantâneos da Europa.
O Banco Central do Brasil e o Banco Central Europeu estão realizando estudos preliminares sobre uma possível conexão entre o Pix e o TIPS, sigla em inglês para Target Instant Payment Settlement. O TIPS é a plataforma utilizada pelo Eurosistema para liquidar pagamentos instantâneos em moeda de banco central, durante 24 horas por dia e em todos os dias do ano.
Se o projeto avançar, um brasileiro poderá, por exemplo, entrar em uma loja, restaurante ou supermercado europeu, ler um QR Code com o aplicativo do seu banco e pagar uma compra em euros utilizando o dinheiro que possui em uma conta no Brasil. A conversão entre real e euro seria feita durante a operação, e o comerciante receberia o valor na moeda local.
A proposta parece simples para quem está acostumado a utilizar o Pix no Brasil, mas exige uma estrutura muito mais complexa nos bastidores. Será necessário conectar dois sistemas financeiros, duas moedas e diferentes regras sobre câmbio, segurança, prevenção a fraudes, proteção de dados e identificação dos usuários.
Também é importante controlar a expectativa. A integração ainda não foi aprovada e não existe uma data definitiva para que brasileiros comecem a pagar em euros pelo Pix. O projeto está na etapa de pré-investigação, na qual são analisadas a viabilidade técnica, jurídica, operacional e de segurança. O cronograma preliminar aponta para um possível piloto somente em junho de 2028, caso todas as etapas anteriores sejam concluídas e os dois bancos centrais aprovem a implementação.
O que o Banco Central está negociando com a Europa
A negociação não pretende simplesmente permitir que um aplicativo brasileiro exiba um QR Code em outro país. O objetivo é estudar uma ligação entre as próprias infraestruturas de pagamentos instantâneos. De um lado está o Pix, que movimenta recursos em reais dentro do Sistema de Pagamentos Brasileiro. Do outro está o TIPS, que realiza a liquidação de pagamentos instantâneos utilizados por instituições financeiras europeias.
O Banco Central Europeu confirmou que existe uma investigação preliminar sobre uma possível interligação entre o TIPS e o Pix. Nessa fase, os técnicos avaliam se os sistemas são compatíveis, quais regras precisariam ser criadas, como aconteceria a conversão cambial e quais instituições poderiam participar da operação.
De acordo com o cronograma divulgado, a etapa inicial deve ser concluída em setembro de 2026. Depois disso, caso os resultados sejam positivos, começaria uma fase de exploração entre outubro de 2026 e março de 2027. Esse período seria utilizado para aprofundar os estudos de viabilidade e definir os principais marcos do projeto.
Uma eventual implementação está prevista, de forma preliminar, para ocorrer entre abril de 2027 e junho de 2028. Técnicos trabalham com a possibilidade de o corredor Pix-TIPS estar tecnicamente operacional em novembro de 2027, antes de um piloto planejado para junho de 2028. Todas essas datas estão sujeitas a mudanças, pois dependem de decisões regulatórias, acordos entre as instituições, testes de segurança e participação do mercado.
Nove áreas do Banco Central brasileiro teriam sido mobilizadas para avaliar o projeto. Entre os assuntos estudados estão a governança da conexão, os custos de implantação, os volumes potenciais de pagamentos, a demanda esperada, os modelos de participação das instituições financeiras e a forma de liquidação e conversão cambial.
O interesse em conectar o Pix a sistemas estrangeiros não surgiu agora. O Banco Central já havia indicado em sua agenda a intenção de ampliar o uso internacional do sistema. Em agosto, a instituição informou que analisava tanto conexões bilaterais com outros países quanto a participação em estruturas multilaterais capazes de reunir diversos sistemas de pagamentos instantâneos.
A aproximação com o TIPS representa uma possibilidade concreta porque a plataforma europeia já foi construída para trabalhar com mais de uma moeda. Além do euro, ela realiza liquidações em coroas suecas e dinamarquesas. A Noruega também assinou um acordo para incluir a coroa norueguesa no sistema, com entrada planejada para 2028.
Como o pagamento em euros pelo celular poderá funcionar
Para o consumidor, a experiência poderá ser parecida com um Pix realizado no Brasil. Imagine um brasileiro em viagem a Portugal, Espanha, França ou Itália. Ao finalizar uma compra de 50 euros, ele escolheria a opção de pagamento instantâneo, abriria o aplicativo de uma instituição financeira participante e apontaria a câmera do celular para o QR Code apresentado pelo estabelecimento.
O aplicativo identificaria que a cobrança está em euros e apresentaria as informações necessárias para a conversão. Antes de confirmar, o usuário precisaria visualizar o valor da compra em euros, a cotação utilizada, as tarifas envolvidas, os tributos aplicáveis e o total que será debitado em reais. Depois da autorização, o dinheiro sairia da conta brasileira e o comerciante receberia os euros.
Esse é o modelo esperado, mas a forma final ainda precisa ser definida. Não se sabe, por exemplo, qual instituição fará a conversão cambial, como será calculado o spread — a diferença entre a cotação de referência e o valor efetivamente cobrado — nem qual será a tarifa da operação. Também não está confirmado se todos os bancos brasileiros poderão oferecer o serviço desde o início.
O Banco Central Europeu afirma que o TIPS realiza liquidações finais e irrevogáveis em tempo real e com dinheiro de banco central. Isso oferece segurança ao sistema porque, após a liquidação, o pagamento não depende de compensações que serão realizadas somente no dia seguinte. A plataforma funciona 24 horas por dia, 365 dias por ano, assim como o Pix.
Na prática, a integração poderia substituir parte do caminho percorrido atualmente pelos pagamentos internacionais. Hoje, muitas transferências entre países passam por bancos correspondentes, intermediários, redes de cartões e diferentes etapas de compensação. Cada camada pode adicionar custos, prazos e procedimentos.
Ao analisar a conexão entre sistemas de pagamentos rápidos, o próprio Banco Central Europeu destaca que esse tipo de integração pode reduzir custos, aumentar a velocidade e melhorar a transparência. Em vez de criar um único sistema mundial, países e blocos econômicos podem conectar suas infraestruturas domésticas por meio de corredores específicos.
É possível que o consumidor não precise abrir uma conta em euros para usar o serviço. O dinheiro poderia sair diretamente da conta mantida em reais, com a conversão acontecendo durante o pagamento. Contudo, isso ainda dependerá do modelo aprovado e das instituições participantes. Portanto, não é possível garantir neste momento que a operação será gratuita ou que sempre oferecerá a menor cotação disponível no mercado.
O ideal é que a tela de confirmação permita comparar o custo com outras alternativas. Hoje, um brasileiro pode pagar no exterior com cartão internacional, conta multimoeda, espécie ou serviços privados que aceitam Pix e entregam o valor convertido ao estabelecimento. Uma conexão oficial com o TIPS aumentaria a concorrência, mas cada opção ainda poderá apresentar taxas, tributos e condições diferentes.
Pix já funciona no exterior? Entenda a diferença
Muitos brasileiros já encontraram placas com a frase “aceitamos Pix” em estabelecimentos de Portugal, Argentina, Estados Unidos e outros destinos. Isso pode transmitir a impressão de que o sistema do Banco Central já opera internacionalmente, mas o funcionamento atual é diferente de uma integração oficial entre o Pix e a infraestrutura financeira de outro país.
O Pix, em sua estrutura original, movimenta reais entre contas participantes no Brasil. Quando uma empresa estrangeira aceita o pagamento, normalmente existe uma instituição ou empresa intermediária com presença e parceiros nos dois países. O brasileiro realiza um Pix em reais para uma conta no Brasil. Em seguida, o intermediário envia o valor correspondente ao parceiro estrangeiro, que credita a moeda local ao comerciante.
Portanto, o Pix é utilizado na parte brasileira da operação, mas a remessa internacional continua ocorrendo por outro mecanismo. O estabelecimento estrangeiro não recebe um Pix brasileiro diretamente em sua conta europeia. Ele recebe euros por meio da estrutura construída pelas empresas que oferecem o serviço.
O mesmo princípio pode ser utilizado no sentido contrário. Um turista estrangeiro no Brasil lê o QR Code Pix de um comércio brasileiro e paga pelo aplicativo de sua instituição no exterior. O parceiro estrangeiro debita o valor na moeda do turista, enquanto uma instituição brasileira realiza o Pix em reais para o estabelecimento. Posteriormente, os parceiros fazem a compensação internacional.
A conexão com o TIPS pretende avançar além desses acordos privados e aproximar as infraestruturas oficiais de pagamentos instantâneos. Isso poderia criar padrões comuns, aumentar o número de instituições participantes e tornar as operações mais rápidas, transparentes e acessíveis.
Mesmo assim, o intermediário cambial não desaparecerá completamente. Alguém continuará sendo responsável por comprar reais, vender euros, manter liquidez nas duas moedas e cumprir as regras de câmbio. A diferença é que a ligação entre os sistemas poderá reduzir etapas e facilitar a liquidação dos pagamentos.
Também não se deve confundir o projeto com a criação de uma moeda única ou com a substituição do euro e do real. O Pix continuará movimentando reais no Brasil, enquanto o TIPS continuará liquidando pagamentos nas moedas aceitas em sua infraestrutura. A conexão serviria como uma ponte para que os valores fossem convertidos e transferidos entre os dois ambientes.
Quais benefícios e desafios ainda precisam ser avaliados
Para os turistas brasileiros, o principal benefício seria a facilidade. Em vez de depender apenas de dinheiro em espécie ou de um cartão internacional, o viajante teria uma nova opção dentro do aplicativo bancário que já utiliza. Isso poderia reduzir a necessidade de levar grandes quantidades de euros e facilitar pequenas compras em estabelecimentos físicos.
Outra possível vantagem seria a transparência. Se o aplicativo mostrar claramente a cotação, o spread, as tarifas, os tributos e o valor final em reais, o consumidor poderá saber exatamente quanto está pagando antes de confirmar. No cartão internacional, algumas pessoas só percebem o custo total quando consultam a fatura.
A concorrência também poderá pressionar os custos. Bancos, fintechs, contas internacionais e empresas de remessas terão mais motivos para oferecer taxas melhores se o pagamento pelo corredor Pix-TIPS se tornar uma alternativa amplamente disponível. Entretanto, redução de custo é uma possibilidade, não uma garantia. A economia dependerá do desenho do serviço e da forma como cada instituição cobrará pela operação.
Para pequenas empresas brasileiras que vendem produtos ou serviços para europeus, a integração também poderá abrir oportunidades. Um profissional autônomo, produtor digital ou pequeno exportador poderia receber pagamentos com mais rapidez e visualizar melhor os custos. Porém, ainda não está definido se a primeira fase atenderá somente compras presenciais, transferências entre pessoas, pagamentos pela internet ou todos esses casos.
O projeto também poderá beneficiar europeus que visitam o Brasil. Um turista poderia pagar em um estabelecimento brasileiro usando o aplicativo da instituição europeia, enquanto o comerciante receberia reais por meio do Pix. Isso reduziria a dependência de cartões e dinheiro em espécie, principalmente em pequenos negócios que já utilizam QR Code.
Os desafios, porém, são grandes. A primeira dificuldade é garantir a segurança em uma operação que atravessa fronteiras. Os dois sistemas precisarão trocar informações suficientes para identificar as partes, prevenir fraudes, combater lavagem de dinheiro e respeitar sanções e regras financeiras, sem expor dados além do necessário.
Também será preciso definir quem atenderá o consumidor quando algo der errado. Em um pagamento doméstico, o cliente procura seu banco no Brasil. Em uma transação internacional, o problema pode envolver o banco brasileiro, o prestador de câmbio, a infraestrutura europeia e a instituição do comerciante. As responsabilidades em casos de cobrança duplicada, erro no valor, fraude, cancelamento ou devolução precisarão estar claras.
A conversão cambial é outro ponto sensível. As cotações mudam continuamente, e a operação precisa garantir que o valor mostrado ao consumidor seja o mesmo debitado no momento da confirmação. Além disso, será necessário assegurar liquidez suficiente em reais e euros para que os pagamentos sejam concluídos rapidamente mesmo em horários de grande movimento.
Há ainda diferenças de legislação e de proteção de dados. Brasil e União Europeia possuem regras próprias sobre privacidade, armazenamento de informações, prevenção a crimes financeiros e direitos dos consumidores. A integração terá de respeitar simultaneamente os requisitos dos dois lados.
Quando a novidade poderá chegar e como o consumidor deve se preparar
O cenário mais otimista aponta para um piloto operacional em junho de 2028. Antes disso, a análise preliminar deverá ser encerrada, os estudos de viabilidade aprofundados e a implementação aprovada. Mesmo que o piloto aconteça no prazo, isso não significa que todos os brasileiros poderão utilizar o serviço imediatamente em qualquer país europeu.
Projetos desse tamanho costumam começar com um número limitado de instituições, usuários e tipos de pagamento. O primeiro teste poderá envolver apenas alguns bancos, fintechs ou países. Depois de avaliar a segurança, a estabilidade e a experiência dos consumidores, a operação poderá ser ampliada gradualmente.
Por enquanto, ninguém precisa mudar sua conta bancária, solicitar um novo cartão ou contratar qualquer serviço para ter acesso ao futuro Pix europeu. Mensagens prometendo cadastro antecipado, liberação de limite internacional ou inscrição para participar do sistema devem ser vistas com desconfiança. Como o projeto ainda está em estudo, não existe um registro oficial aberto ao público.
Quem viajar antes da possível integração deve continuar comparando as alternativas disponíveis. É importante observar a cotação oferecida, as tarifas, os tributos, a segurança do aplicativo e o custo total da operação. Estabelecimentos que anunciam aceitar Pix no exterior podem ser legítimos, mas o consumidor deve conferir o nome e o valor do recebedor antes de confirmar.
Também é recomendável evitar QR Codes enviados por desconhecidos ou colados sobre outros códigos em locais públicos. A facilidade de pagamento não elimina os cuidados básicos contra golpes. Antes de concluir qualquer transação, o usuário deve verificar o valor, a moeda, o destinatário e todas as informações apresentadas pelo aplicativo.
Se a integração entre Pix e TIPS for aprovada, ela poderá representar uma das maiores evoluções do sistema brasileiro desde seu lançamento. O projeto tem potencial para tornar pagamentos internacionais mais simples e aumentar a concorrência em um mercado que ainda possui custos elevados e muitas etapas.
Mais do que permitir que um turista pague um café em Paris ou uma compra em Lisboa com o celular, a conexão mostraria como sistemas públicos de pagamento instantâneo podem ultrapassar fronteiras. O Pix passaria a fazer parte de uma tendência mundial de integração entre infraestruturas nacionais, criando novos caminhos para pessoas e empresas movimentarem dinheiro.
Ainda existe uma longa distância entre a negociação atual e o serviço disponível no aplicativo. O cronograma é preliminar, os custos não foram definidos e o desenho da conversão cambial continua em estudo. Mesmo assim, o fato de Brasil e Europa já analisarem tecnicamente a conexão revela que a internacionalização do Pix deixou de ser apenas uma ideia distante.
Uma questão que deverá chamar bastante atenção é a comparação entre o futuro Pix europeu e as contas internacionais que já permitem ao brasileiro comprar euros antes da viagem. Na conta multimoeda, o usuário normalmente realiza o câmbio com antecedência e mantém o saldo em moeda estrangeira. No possível corredor Pix-TIPS, a conversão poderá acontecer somente no momento da compra. Cada modelo possui vantagens: comprar antecipadamente ajuda a planejar o orçamento e reduz a exposição a mudanças repentinas da cotação, enquanto converter no momento do pagamento traz conveniência e evita deixar dinheiro parado em uma moeda que talvez não seja totalmente utilizada.
O consumidor não deverá olhar apenas para a promessa de rapidez. Uma transação concluída em segundos pode continuar cara se o spread cambial e as tarifas não forem competitivos. Por isso, a qualidade do futuro serviço dependerá muito da transparência. A informação mais importante não será somente a cotação do euro exibida pelo aplicativo, mas o valor total em reais que sairá da conta depois de todos os custos. Essa é a cifra que deverá ser comparada com o cartão, a conta internacional e outras formas de pagamento.
Outro detalhe é que Europa e zona do euro não são exatamente a mesma coisa. Muitos países europeus utilizam o euro, mas outros possuem moedas próprias. O TIPS já trabalha com euro, coroa sueca e coroa dinamarquesa, e a coroa norueguesa deverá ser incluída futuramente. Isso mostra que a plataforma possui capacidade para operar com várias moedas, mas não significa que o Pix estará automaticamente disponível em todo o continente ou que todas as moedas serão aceitas desde o primeiro dia.
Para o pequeno empresário, a integração poderá trazer impactos além do turismo. Empresas brasileiras que compram serviços digitais, contratam fornecedores europeus ou vendem para clientes no exterior poderão encontrar um caminho mais simples para pequenos pagamentos. Atualmente, o custo de uma remessa internacional pode pesar principalmente nas operações de baixo valor, porque algumas tarifas são fixas. Se a nova infraestrutura reduzir intermediários, os pequenos negócios podem ser proporcionalmente os maiores beneficiados.
Os bancos e as fintechs também terão de adaptar seus aplicativos. A experiência precisará ser simples para o usuário, mas os controles nos bastidores deverão ser rigorosos. O sistema terá de verificar a identidade dos participantes, analisar riscos, cumprir regras de prevenção à lavagem de dinheiro e identificar comportamentos suspeitos sem tornar cada pagamento excessivamente demorado. Encontrar esse equilíbrio entre velocidade e segurança será uma das partes mais difíceis do projeto.
A conexão ainda poderá estimular outros corredores internacionais. Se o modelo com a Europa funcionar, o conhecimento adquirido poderá ajudar o Brasil a negociar ligações com sistemas instantâneos de outras regiões. Isso não significa que existirá um “Pix mundial” de uma hora para outra. A tendência mais provável é a construção gradual de conexões entre países ou grupos de países, cada uma com regras, moedas e instituições participantes próprias.
O Finanças e Cia continuará acompanhando as negociações e atualizará esta matéria quando o Banco Central e o Banco Central Europeu divulgarem novos detalhes sobre o corredor Pix-TIPS.









