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Geração Z será a mais rica da história? Bank of America projeta renda de US$ 74 trilhões até 2040

Mesmo enfrentando aluguel caro, dificuldade para comprar imóveis e forte pressão do custo de vida, a Geração Z poderá se transformar na geração com maior renda global nas próximas décadas. Estudos do Bank of America apontam para uma mudança econômica de grandes proporções, impulsionada pelo avanço profissional dos jovens, crescimento dos salários, consumo e transferência de patrimônio entre gerações.

A Geração Z vive atualmente um dos maiores paradoxos econômicos das últimas décadas. Milhões de jovens enfrentam dificuldades para sair da casa dos pais, comprar o primeiro imóvel, pagar aluguel, formar uma reserva financeira e acompanhar a elevação do custo de vida. Ao mesmo tempo, projeções do Bank of America indicam que essa geração poderá se tornar uma das forças econômicas mais importantes do planeta nos próximos anos.

Segundo estudos produzidos pelo Bank of America Institute e pelo BofA Global Research, a renda bruta global da Geração Z, estimada em aproximadamente US$ 9 trilhões em 2023, poderá chegar perto de US$ 36 trilhões em 2030 e atingir aproximadamente US$ 74 trilhões em 2040.

O crescimento é gigantesco e ajuda a explicar por que empresas, bancos, investidores e grandes marcas estão tentando entender cada vez mais o comportamento financeiro dessa geração.

Existe, entretanto, uma diferença fundamental que precisa ser esclarecida. Os US$ 74 trilhões projetados pelo Bank of America não representam necessariamente o patrimônio acumulado pelos jovens. O valor corresponde à projeção de renda bruta global da geração, incluindo salários, rendimentos de investimentos e outras fontes de receita.

Portanto, dizer simplesmente que a Geração Z terá uma fortuna de US$ 74 trilhões pode levar a uma interpretação equivocada. A projeção correta é ainda muito relevante: essa geração poderá controlar uma parcela enorme da renda, do consumo e dos investimentos da economia mundial.

Como uma geração que hoje sofre com o custo de vida poderá ganhar tanto dinheiro?

Uma das principais explicações é demográfica.

A Geração Z ainda está entrando no mercado de trabalho. Muitos de seus integrantes estão nos primeiros empregos, concluindo estudos ou começando suas carreiras profissionais. Isso significa que uma parcela enorme dessa população ainda está distante da fase da vida em que tradicionalmente são alcançados os maiores salários.

Nos próximos dez ou quinze anos, milhões desses jovens ganharão experiência profissional, ocuparão cargos de maior responsabilidade, abrirão empresas, investirão e ampliarão significativamente seus rendimentos.

Por isso, parte do forte crescimento projetado para a renda da Geração Z acontece naturalmente à medida que essa população envelhece e entra nos anos de maior produtividade econômica.

O Bank of America também destaca o tamanho dessa geração. A Geração Z representa uma parcela significativa da população mundial, o que significa que pequenas mudanças na renda média de cada indivíduo podem representar trilhões de dólares quando calculadas globalmente.

Mas a realidade atual permanece muito diferente desse futuro projetado.

Pesquisa divulgada pelo Bank of America em 2026 mostrou que 42% dos adultos da Geração Z entrevistados nos Estados Unidos afirmaram viver de salário em salário. O elevado custo de vida apareceu como uma das maiores preocupações financeiras, enquanto despesas com moradia continuam comprometendo uma parcela importante da renda dos jovens.

Ao mesmo tempo, a pesquisa mostrou sinais de amadurecimento financeiro. Cerca de 66% disseram estar poupando algum dinheiro, e a dependência da ajuda financeira dos pais apresentou redução em relação aos levantamentos anteriores.

Esses números mostram que a Geração Z não está necessariamente financeiramente confortável, mas começa a desenvolver estratégias para lidar com uma realidade econômica diferente daquela enfrentada por gerações anteriores.

O mercado imobiliário é um dos melhores exemplos dessa transformação.

Os preços elevados dos imóveis e os juros mais altos dificultaram a compra da primeira casa para muitos jovens. Em outra pesquisa divulgada pelo Bank of America em 2026, grande parte dos potenciais compradores afirmou considerar os preços dos imóveis um obstáculo importante para entrar no mercado.

Isso ajuda a explicar por que tantos jovens continuam alugando imóveis ou morando com familiares durante mais tempo.

A situação cria um contraste interessante: a geração que poderá movimentar dezenas de trilhões de dólares nas próximas décadas é justamente aquela que hoje encontra dificuldades para adquirir um dos ativos mais tradicionais utilizados para construção de patrimônio.

A maior transferência de riqueza da história também poderá mudar o cenário

Outro fenômeno importante deverá acontecer simultaneamente ao crescimento da renda da Geração Z: a transferência de patrimônio acumulado pelas gerações anteriores.

A Cerulli Associates estima que aproximadamente US$ 124 trilhões em patrimônio poderão mudar de mãos nos Estados Unidos até 2048.

Esse processo ficou conhecido como Great Wealth Transfer, ou Grande Transferência de Riqueza.

Durante décadas, Baby Boomers e outras gerações acumularam imóveis, empresas, ações, fundos de investimento, contas de aposentadoria e outros ativos. À medida que essa população envelhece, uma parcela significativa desse patrimônio será transferida para filhos, netos e outros herdeiros.

A dimensão dessa transferência é histórica.

Entretanto, é importante novamente evitar interpretações exageradas.

A Geração Z não receberá sozinha os US$ 124 trilhões.

Estimativas da Cerulli indicam que Millennials e integrantes da Geração X deverão receber inicialmente a maior parte das heranças, enquanto a Geração Z e gerações mais novas também participarão dessa transferência ao longo das próximas décadas.

Isso significa que a riqueza poderá crescer significativamente entre os jovens, mas de maneira extremamente desigual.

Um integrante da Geração Z pertencente a uma família que possui imóveis, empresas e investimentos poderá receber um patrimônio considerável no futuro.

Outro jovem, mesmo pertencendo à mesma geração, poderá não receber praticamente nenhum ativo.

Portanto, é perfeitamente possível que a Geração Z se torne uma das gerações mais ricas da história em números agregados e, ao mesmo tempo, apresente uma enorme desigualdade patrimonial entre seus próprios integrantes.

Essa diferença é importante porque renda e riqueza não são a mesma coisa.

Uma pessoa pode ganhar muito dinheiro e possuir pouco patrimônio caso gaste praticamente toda a sua renda. Outra pessoa pode ter uma renda menor, mas acumular imóveis, ações e investimentos durante muitos anos.

É justamente a capacidade de transformar renda em ativos que determinará quais integrantes da Geração Z conseguirão realmente construir riqueza.

Outro número que ganhou grande repercussão foi o de 38% dos jovens.

Esse percentual aparece em uma pesquisa da Northwestern Mutual e significa que aproximadamente 38% dos participantes da Geração Z entrevistados disseram esperar receber dinheiro ou ativos por meio de uma herança.

Isso não significa que 38% da geração automaticamente ficará rica.

Existe inclusive uma diferença entre aquilo que os jovens esperam receber e aquilo que as gerações anteriores afirmam planejar deixar.

Além disso, aumento da expectativa de vida, despesas médicas e custos associados à aposentadoria podem reduzir o patrimônio que efetivamente chegará aos herdeiros.

Depender exclusivamente de uma futura herança, portanto, continua sendo uma estratégia financeira extremamente arriscada.

O poder de consumo da Geração Z poderá transformar vários setores

Se as projeções estiverem corretas, uma das maiores transformações ocorrerá no consumo.

Uma geração que movimenta hoje uma parcela relativamente pequena da renda mundial poderá controlar dezenas de trilhões de dólares dentro de poucos anos.

Essa mudança deverá obrigar empresas a adaptar produtos, serviços e estratégias de marketing.

Tecnologia, comércio eletrônico, serviços financeiros digitais, games, beleza, saúde, viagens, alimentação, educação online e produtos destinados a animais de estimação aparecem entre os segmentos particularmente expostos às mudanças de comportamento dessa geração.

A relação da Geração Z com dinheiro também apresenta algumas características diferentes.

Essa população cresceu utilizando smartphones, comércio eletrônico, bancos digitais, plataformas de investimento e redes sociais. Comparar preços, pesquisar opiniões e trocar rapidamente de marca ou serviço tornou-se algo natural.

Ao mesmo tempo, estudos recentes do Bank of America identificam uma tendência curiosa.

Mesmo enfrentando dificuldade para alcançar grandes objetivos financeiros, como comprar uma casa, muitos jovens continuam gastando com pequenas experiências e recompensas pessoais.

É a chamada economia dos “little treats”, ou pequenos prazeres.

Café, beleza, restaurantes, pequenas viagens e entretenimento permanecem presentes no orçamento mesmo quando grandes aquisições são adiadas.

Uma possível explicação é simples.

Quando comprar uma casa parece financeiramente distante, gastar uma pequena quantia em uma experiência continua sendo algo acessível.

Isso não significa necessariamente falta de responsabilidade financeira. O próprio levantamento do Bank of America mostrou que muitos integrantes da Geração Z estão cortando gastos, reduzindo refeições fora de casa, recusando eventos sociais e buscando fontes adicionais de renda para enfrentar o aumento do custo de vida.

A geração parece estar tentando equilibrar duas necessidades: sobreviver a uma realidade econômica mais cara e, ao mesmo tempo, preservar algum nível de qualidade de vida.

Afinal, a Geração Z será realmente a mais rica da história?

A resposta depende da definição utilizada.

Se considerarmos a renda bruta agregada, as projeções do Bank of America indicam que existe uma possibilidade concreta de a Geração Z se transformar na geração com maior renda mundial nas próximas décadas.

A estimativa de aproximadamente US$ 74 trilhões em renda global até 2040 mostra o tamanho da transformação.

Isso não significa, entretanto, que todos os jovens ficarão ricos.

O número é resultado da combinação entre uma população enorme, crescimento profissional, aumento de salários, empreendedorismo, investimentos e transferência de patrimônio.

Dentro dessa mesma geração existirão pessoas extremamente ricas e outras que continuarão enfrentando dificuldades financeiras.

Moradia, educação, mercado de trabalho, inflação, acesso ao crédito, desigualdade e capacidade de investir continuarão determinando quem conseguirá transformar renda em patrimônio.

Por isso, talvez seja mais correto afirmar que a Geração Z poderá se tornar a geração com maior poder econômico da história, e não simplesmente que todos os seus integrantes serão ricos.

A diferença parece pequena, mas economicamente é enorme.

E o que isso significa para o Brasil?

Os números divulgados pelo Bank of America e pela Cerulli precisam ser analisados com cuidado quando aplicados ao Brasil.

Grande parte das pesquisas sobre custo de vida, imóveis e heranças foi realizada nos Estados Unidos. A realidade brasileira possui níveis de renda, patrimônio, crédito, juros e distribuição de riqueza bastante diferentes.

Mesmo assim, a tendência demográfica é relevante.

Os jovens brasileiros que hoje possuem entre aproximadamente 20 e 30 anos estarão em uma fase completamente diferente da vida profissional dentro de uma década.

Muitos estarão ocupando cargos de liderança, administrando empresas, comprando imóveis, investindo e formando patrimônio.

Isso significa que empresas brasileiras também precisarão acompanhar essa mudança.

Entender a Geração Z deixará de ser apenas uma questão de redes sociais ou publicidade.

Será uma questão econômica.

Bancos precisarão disputar seus investimentos.

Construtoras terão que entender suas preferências de moradia.

Empresas precisarão adaptar produtos e modelos de negócio.

Marcas terão que conquistar consumidores que cresceram com acesso instantâneo a informações e possuem facilidade para comparar preços e trocar de fornecedor.

Ao mesmo tempo, existe uma lição financeira importante para os próprios jovens.

Ganhar mais dinheiro no futuro não garante riqueza.

A diferença entre renda e patrimônio continuará sendo decisiva.

Quem conseguir utilizar o crescimento da renda para adquirir ativos, investir regularmente, evitar dívidas caras e construir patrimônio terá uma chance significativamente maior de aproveitar essa transformação econômica.

Aqueles que simplesmente aumentarem os gastos na mesma proporção da renda poderão continuar enfrentando dificuldades mesmo ganhando muito mais.

Por isso, a história econômica da Geração Z talvez não seja simplesmente a de uma geração que ficará rica.

A verdadeira transformação será observar bilhões de jovens entrando simultaneamente na fase de maior produção, renda, consumo e investimento de suas vidas.

Quando uma população desse tamanho passa por essa mudança, não são apenas suas contas bancárias que se transformam.

Empresas, mercados, investimentos, imóveis, consumo e até a própria economia mundial mudam junto.

Fontes consultadas: Bank of America Institute; BofA Global Research; estudo Gen Z: A New Economic Force; Bank of America Better Money Habits; relatório The Gen Z Reality Check; Cerulli Associates, estudos sobre a Great Wealth Transfer; Northwestern Mutual, Planning & Progress Study.

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