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Banco Central pode apertar regras de crédito: brasileiros estão endividados demais?

Comprometimento da renda com dívidas sem financiamento imobiliário atinge recorde de 26,6%, enquanto inadimplência avança e crédito caro preocupa autoridades. BC estuda medidas para tornar concessões mais responsáveis e reduzir riscos para famílias e bancos.

O crescente endividamento das famílias brasileiras entrou definitivamente no radar do Banco Central. Depois de anos de expansão do crédito, juros elevados e maior utilização de modalidades caras, como cartão de crédito rotativo e empréstimos pessoais sem garantia, a autoridade monetária passou a avaliar medidas para conter riscos e tornar a concessão de novos empréstimos mais sustentável.

Dados divulgados pelo Banco Central mostram que o comprometimento da renda das famílias com o pagamento de dívidas, excluindo financiamento imobiliário, chegou a 26,6% em junho de 2026, o maior nível da série. No fim de 2025, essa proporção estava em 25,7%.

Isso significa que, em média, mais de um quarto da renda considerada pelo indicador já está sendo direcionada ao pagamento de prestações, juros e amortizações de dívidas não imobiliárias.

O problema fica ainda mais evidente quando se observa o conjunto das obrigações. O indicador mais amplo de comprometimento de renda chegou a 28,9%, enquanto o endividamento das famílias permaneceu próximo de 49,8% da renda, segundo os dados mais recentes divulgados pelo BC.

A discussão, portanto, deixou de ser apenas sobre quanto crédito existe na economia e passou a envolver uma questão mais delicada: qual é a qualidade desse crédito e quanto ele está custando para as famílias?

Crédito cresce, mas inadimplência também

O saldo das operações de crédito do Sistema Financeiro Nacional alcançou aproximadamente R$ 7,37 trilhões em julho, crescimento de 9,5% em 12 meses.

Entre as pessoas físicas, a carteira aumentou 10,8% no período de 12 meses, ritmo superior ao observado entre as empresas.

O crescimento seria menos preocupante se não estivesse acompanhado por uma deterioração dos indicadores de pagamento.

Em julho, a taxa de inadimplência da carteira total do sistema financeiro atingiu 4,9%, maior patamar da série iniciada em 2011. Nas operações de crédito livre destinadas às pessoas físicas, o índice chegou a 7,8%.

Crédito livre é aquele em que bancos e demais instituições têm maior liberdade para definir juros e condições. Nesse grupo estão diversas modalidades utilizadas no cotidiano, como cartão de crédito, cheque especial, crédito pessoal e financiamento de veículos.

O avanço simultâneo do crédito e da inadimplência ajuda a explicar por que o Banco Central aumentou o nível de atenção sobre o mercado.

O verdadeiro problema está no crédito caro

Nem toda dívida é necessariamente ruim.

Um financiamento imobiliário, por exemplo, pode representar a aquisição de um patrimônio de longo prazo. Da mesma forma, um empréstimo utilizado para ampliar uma empresa ou investir em educação pode gerar retorno futuro.

A preocupação aumenta quando famílias passam a utilizar crédito de emergência e de elevado custo para financiar despesas recorrentes ou consumo imediato.

O próprio Banco Central já identificou que o aumento do custo do crédito e a expansão da demanda por modalidades emergenciais contribuíram para levar o comprometimento de renda a patamares elevados.

Entre as modalidades que mais chamam atenção está o cartão de crédito.

O Brasil possui cerca de 96 milhões de usuários de cartão, dos quais aproximadamente 52,8 milhões carregam saldos no rotativo ou em parcelamentos com cobrança de juros, segundo dados citados no debate atual sobre endividamento.

Em julho, a taxa média do cartão de crédito rotativo ficou em impressionantes 436,1% ao ano. Apesar de ter recuado em relação aos 442,4% registrados no mês anterior, a modalidade continua sendo uma das formas de crédito mais caras disponíveis ao consumidor brasileiro.

A concessão de crédito no rotativo também cresceu: passou de cerca de R$ 38,6 bilhões em junho para aproximadamente R$ 40 bilhões em julho.

Vale lembrar que, desde janeiro de 2024, a legislação limita os juros e encargos acumulados no rotativo e no parcelamento com juros a 100% do valor original da dívida. Na prática, uma dívida original de R$ 1.000 não pode gerar mais de R$ 1.000 adicionais em juros e encargos nessas modalidades.

Mesmo com essa proteção, o custo continua extremamente elevado.

Juros ainda pesam no orçamento das famílias

O custo médio do crédito continua alto no Brasil.

Em julho, a taxa média do crédito livre recuou de 49,7% para 47,7% ao ano. Para pessoas físicas, passou de aproximadamente 63,9% para 60% ao ano.

No crédito pessoal sem consignação, apesar da queda registrada no mês, a taxa média ainda ficou em cerca de 111% ao ano. Já o cheque especial permaneceu próximo de 137,3% ao ano.

Esses números ajudam a explicar por que uma dívida aparentemente administrável pode consumir rapidamente uma parcela relevante da renda.

Quanto maior a taxa de juros, maior tende a ser a prestação necessária para financiar o mesmo valor e maior o risco de o consumidor recorrer a outra dívida para conseguir pagar a anterior.

É nesse ponto que surge o chamado ciclo de endividamento.

O consumidor utiliza o cartão para cobrir despesas do mês, não consegue pagar integralmente a fatura, entra no rotativo, contrata um empréstimo para quitar o cartão e, posteriormente, pode recorrer novamente ao crédito para completar o orçamento.

Banco Central prepara medidas

Após a mais recente reunião do Comitê de Estabilidade Financeira, o Comef, o Banco Central informou estar preparando medidas diante do crescimento da participação das modalidades de crédito de alto custo no endividamento das famílias.

O objetivo declarado é mitigar riscos, melhorar a sustentabilidade do crescimento do crédito e preservar a resiliência do sistema financeiro.

Ainda não há uma lista oficial de medidas definidas.

Segundo informações obtidas pela Reuters com fontes familiarizadas com as discussões, a tendência inicial seria concentrar esforços nas instituições que concedem crédito, antes de estabelecer diretamente um limite máximo de endividamento para cada consumidor. O Banco Central não comentou oficialmente os detalhes das medidas em estudo.

Analistas citados pela agência avaliam que as alternativas poderiam incluir medidas como:

  • maiores exigências de capital para determinadas operações;
  • aumento de requerimentos prudenciais;
  • pesos de risco maiores para empréstimos considerados mais perigosos;
  • alterações em regras relacionadas à concessão;
  • eventual utilização do Adicional Contracíclico de Capital Principal.

Essas possibilidades, porém, são hipóteses levantadas por analistas e não medidas oficialmente anunciadas pelo Banco Central.

Essa distinção é importante.

Por enquanto, não existe anúncio de proibição de empréstimos ou de um teto obrigatório de endividamento aplicável a todos os brasileiros.

O que é o adicional contracíclico de capital?

Uma das ferramentas discutidas no mercado é o chamado Adicional Contracíclico de Capital Principal, ou ACCPBrasil.

O mecanismo funciona como um colchão financeiro.

Durante períodos em que o crédito cresce muito e os riscos aumentam, o Banco Central pode exigir que as instituições mantenham uma quantidade adicional de capital.

Esse dinheiro funciona como uma proteção para absorver perdas caso a inadimplência aumente no futuro.

Atualmente, o adicional permanece em 0%. O Comef manteve esse nível em sua reunião de agosto, embora o Banco Central já venha estudando uma estrutura em que o mecanismo possa ter um valor neutro positivo em períodos normais.

Uma exigência maior de capital pode tornar determinados empréstimos menos atraentes para os bancos.

Na prática, isso pode levar as instituições a:

serem mais criteriosas na análise de crédito;
reduzirem limites para determinados clientes;
reavaliarem operações de maior risco;
exigirem maior capacidade de pagamento;
ou cobrarem preços diferentes conforme o risco do tomador.

Ou seja, o aperto poderia começar dentro dos bancos antes de chegar diretamente ao consumidor.

FMI propõe teto de 40% para novos empréstimos

O debate ganhou força depois que o Fundo Monetário Internacional analisou o sistema financeiro brasileiro.

Em relatório publicado em julho, o FMI afirmou que o crescimento do comprometimento da renda fortaleceu a justificativa para adoção de instrumentos macroprudenciais direcionados aos tomadores de crédito.

Uma das propostas estudadas pelo Fundo seria estabelecer um limite para a chamada relação Debt Service-to-Income (DSTI) — em português, a proporção da renda utilizada para pagar dívidas.

O FMI simulou o que teria acontecido caso novos empréstimos concedidos em 2025 estivessem sujeitos a um limite de 40% da renda destinada ao serviço da dívida.

Segundo os cálculos, a medida poderia ter reduzido o comprometimento médio em aproximadamente 5 pontos percentuais e diminuído o estoque de crédito às famílias em cerca de 5,6%. A simulação exclui financiamentos imobiliários e grande parte das operações com cartão de crédito.

O Fundo sugeriu que, caso uma regra desse tipo seja implementada, ela seja introduzida gradualmente e acompanhada por critérios padronizados para cálculo da renda e das obrigações financeiras.

O FMI também defendeu maior proteção ao consumidor e mecanismos que aumentem a responsabilidade das instituições na concessão de crédito.

Mas o Banco Central pode impedir uma pessoa de pegar empréstimo?

No cenário atual, não.

O próprio Sistema de Informações de Créditos do Banco Central, o SCR, registra operações de crédito e permite que instituições avaliem melhor o risco dos clientes, mas estar registrado no sistema não impede automaticamente alguém de contratar um novo empréstimo.

A decisão continua dependendo da análise realizada entre o consumidor e a instituição financeira.

Isso pode mudar parcialmente caso instrumentos baseados na capacidade de pagamento sejam implementados no futuro.

Mas, neste momento, um teto como o proposto pelo FMI continua sendo uma recomendação — não uma regra vigente no Brasil.

Brasileiros estão endividados demais?

A resposta exige cuidado.

Os indicadores agregados mostram que o endividamento e, principalmente, o comprometimento da renda estão elevados. Ao mesmo tempo, a inadimplência está crescendo e milhões de consumidores utilizam modalidades de crédito extremamente caras.

Portanto, existe um sinal claro de deterioração.

Mas isso não significa que todas as famílias brasileiras estejam na mesma situação.

Uma pessoa com financiamento imobiliário de longo prazo, taxa relativamente baixa e renda estável possui um perfil completamente diferente daquele de alguém que utiliza rotativo do cartão e empréstimos pessoais para pagar despesas básicas.

Por isso, mais importante do que simplesmente perguntar “quanto o brasileiro deve?” é observar:

quanto da renda está comprometida;
qual é a taxa de juros das dívidas;
qual é o prazo dos empréstimos;
se existe patrimônio associado à dívida;
e se o consumidor está tomando novos empréstimos para pagar dívidas antigas.

É justamente a combinação de alto comprometimento da renda, modalidades caras e aumento da inadimplência que preocupa as autoridades.

Por que isso também pode afetar quem não está endividado?

Um eventual aperto regulatório não afetaria apenas quem já possui muitas dívidas.

Se bancos forem obrigados a manter mais capital ou endurecer seus modelos de risco, a concessão de novos empréstimos pode ficar mais seletiva.

Consumidores podem encontrar:

  • limites menores no cartão;
  • análises de crédito mais rigorosas;
  • maior dificuldade para conseguir empréstimos sem garantia;
  • redução do valor liberado;
  • exigência maior de comprovação de renda;
  • ou condições diferentes conforme o nível de endividamento.

O efeito não necessariamente seria imediato.

Medidas prudenciais costumam ser implementadas gradualmente justamente para evitar uma contração abrupta do crédito capaz de prejudicar consumo, empresas e atividade econômica.

Bancos estão em risco?

Apesar do aumento do endividamento das famílias, não há hoje indicação de uma crise bancária iminente.

O FMI concluiu em sua avaliação de 2026 que o sistema financeiro brasileiro continua rentável, líquido e bem capitalizado em termos agregados, além de apresentar capacidade para enfrentar cenários adversos.

A preocupação do Banco Central é principalmente preventiva.

Medidas macroprudenciais são normalmente adotadas antes que um problema de crédito se transforme em uma ameaça sistêmica.

A lógica é simples: quanto mais cedo os riscos forem identificados, menor a probabilidade de uma futura onda de inadimplência exigir medidas muito mais duras.

O que o consumidor pode fazer agora?

Independentemente das decisões do Banco Central, algumas atitudes podem reduzir significativamente o risco financeiro das famílias.

A primeira é conhecer o custo efetivo das dívidas.

Cartão rotativo e cheque especial devem ser tratados como modalidades emergenciais, e não como extensão permanente da renda.

Também é importante evitar contratar um novo empréstimo apenas para pagar outro sem antes comparar o custo total das duas dívidas.

Quando a substituição reduz significativamente os juros — por exemplo, ao trocar uma dívida de cartão por crédito consignado mais barato — a operação pode fazer sentido.

Outro passo é consultar as próprias operações de crédito registradas no sistema financeiro, organizar todas as parcelas em uma única planilha e descobrir quanto da renda mensal já está comprometida antes de assumir novas obrigações.

Reserva de emergência e planejamento financeiro também ganham importância em um ambiente no qual o acesso ao crédito pode se tornar mais seletivo.

Um novo momento para o mercado de crédito

O movimento do Banco Central sinaliza uma possível mudança importante na política de crédito brasileira.

Durante muitos anos, a expansão bancária, os bancos digitais, o Pix e novas tecnologias tornaram o sistema financeiro mais acessível e aumentaram a competição.

O avanço trouxe benefícios evidentes, mas também tornou o crédito disponível para um número muito maior de consumidores.

Agora surge uma segunda etapa do processo: garantir que o acesso ao crédito não se transforme em superendividamento.

O desafio será encontrar equilíbrio.

Restringir demais os empréstimos pode prejudicar famílias, consumo e atividade econômica. Permitir expansão excessiva de crédito caro, por outro lado, aumenta a inadimplência, reduz a renda disponível e pode comprometer a saúde financeira de milhões de brasileiros.

Os próximos passos do Banco Central serão decisivos para definir de que forma esse equilíbrio será buscado.

Por enquanto, o alerta já está dado: o problema do Brasil não é simplesmente a existência de crédito, mas o crescimento de dívidas caras consumindo uma parcela cada vez maior da renda das famílias.

E, se os indicadores continuarem piorando, a tendência é que bancos e consumidores encontrem regras de concessão de crédito mais rigorosas nos próximos anos.

Fontes consultadas: Banco Central do Brasil, Comitê de Estabilidade Financeira (Comef), Fundo Monetário Internacional (FMI), Reuters, Agência Brasil e dados das Estatísticas Monetárias e de Crédito divulgadas em julho e agosto de 2026.

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