Durante muitos anos, o movimento mais comum entre as duas maiores economias da América do Sul seguia uma direção conhecida: empresas brasileiras aproveitavam períodos de crise na Argentina para comprar ativos do país vizinho.
Agora, esse fluxo começa a mostrar sinais de inversão.
Empresários e grupos argentinos estão ampliando investimentos no Brasil, aproveitando uma combinação de maior capacidade financeira do lado argentino, juros elevados do lado brasileiro e oportunidades para adquirir negócios com posições estratégicas em um dos maiores mercados consumidores do mundo.
Dados da TTR Data mostram a dimensão dessa mudança. Em 2025, empresas argentinas realizaram 18 operações de aquisição ou investimento no Brasil, tornando o país o principal destino internacional do capital corporativo argentino. Estados Unidos apareceram em segundo lugar, com 11 operações, e México, com oito.
No sentido inverso, grupos brasileiros realizaram dez operações na Argentina no mesmo período.
O movimento continuou em 2026 e já envolve setores tão diferentes quanto medicamentos, investimentos financeiros e infraestrutura.
Mas por que empresários argentinos estão olhando justamente para o Brasil?
A explicação envolve juros, valuation, acesso a capital, tamanho de mercado e uma transformação do ambiente econômico argentino.
Argentina recupera capacidade de investir
Para entender o movimento, primeiro é preciso olhar para o que mudou do outro lado da fronteira.
Anos de inflação elevada, desvalorizações cambiais, controles sobre moedas estrangeiras e dificuldade de acesso ao mercado internacional restringiam a capacidade das empresas argentinas de realizar grandes investimentos fora do país.
Esse ambiente vem passando por mudanças.
O mercado de M&A argentino ganhou força. Segundo a TTR Data, somente no primeiro semestre de 2026 foram registradas 101 operações de fusões e aquisições, movimentando aproximadamente US$ 4,67 bilhões.
O capital movimentado aumentou 38% na comparação anual.
A PwC Argentina, utilizando metodologia própria, identificou 56 grandes transações no primeiro semestre, no valor de aproximadamente US$ 5,7 bilhões, classificando o período como o terceiro semestre de maior volume financeiro desde pelo menos 2010.
A consultoria atribui parte desse ambiente à maior estabilidade macroeconômica e cambial, redução do risco percebido e avanço de reformas econômicas.
A inflação argentina continua elevada quando observada em horizontes mais longos, mas perdeu força em relação aos níveis extremos registrados anteriormente. Em julho de 2026, o índice oficial de preços ao consumidor avançou 2,1% no mês, segundo o INDEC.
Em maio, o risco-país argentino havia caído para aproximadamente 498 pontos-base, segundo dados reportados pela Reuters, refletindo uma melhora relevante da percepção do mercado, embora o país continue sendo considerado um investimento de risco.
Esse conjunto de mudanças aumenta a previsibilidade e, principalmente, a capacidade de empresários argentinos planejarem investimentos de longo prazo.
E uma das primeiras fronteiras naturais para essa expansão é justamente o Brasil.
Brasil oferece algo difícil de encontrar na região: escala
O interesse pelo Brasil não acontece apenas porque determinados ativos podem estar sendo negociados a valuations interessantes.
Existe uma questão estrutural.
O país possui o maior mercado consumidor da América Latina, um sistema financeiro sofisticado, mercado de capitais desenvolvido, empresas de tecnologia relevantes e setores de grande dimensão, como:
- serviços financeiros;
- saúde e indústria farmacêutica;
- energia;
- infraestrutura;
- agronegócio;
- tecnologia;
- mercado imobiliário;
- varejo.
Para uma empresa argentina que já conquistou uma posição importante no mercado doméstico, comprar uma operação brasileira pode ser uma maneira muito mais rápida de ganhar escala regional.
Em vez de começar uma operação do zero, desenvolver tecnologia, obter licenças, contratar equipes e conquistar clientes, o comprador adquire uma estrutura que já funciona.
É exatamente aí que entram as fusões e aquisições.
Elea compra Cellera Farma e entra no maior mercado farmacêutico da América Latina
Um dos exemplos mais emblemáticos de 2026 aconteceu no setor farmacêutico.
Acionistas ligados ao argentino Laboratorio Elea adquiriram o controle da brasileira Cellera Farma, marcando a entrada do grupo no mercado brasileiro. A própria Cellera confirmou a entrada do grupo controlador da Elea em sua estrutura acionária.
Informações divulgadas no mercado apontaram para a aquisição de aproximadamente 90% da companhia, permanecendo o fundador Omilton Visconde Junior como acionista e executivo da empresa. O valor oficial da transação não foi divulgado.
A operação se torna ainda mais interessante quando observada juntamente com a expansão da Cellera.
A farmacêutica brasileira também fechou acordo para comercializar e distribuir no país medicamentos da Sanofi. Em junho, a Cellera assumiu a comercialização, distribuição e promoção de Puran e Zinpass Eze no Brasil.
Para os investidores argentinos, portanto, não se tratava simplesmente de adquirir uma fábrica ou uma marca.
Era a compra de uma plataforma pronta para expansão no maior mercado farmacêutico latino-americano.
Essa lógica é central em M&A.
O comprador não avalia apenas quanto a empresa ganha hoje, mas quanto poderá ganhar depois de integrada ao seu grupo.
Cocos Capital usa Warren para entrar no mercado financeiro brasileiro
No mercado financeiro ocorreu movimento semelhante.
Em 1º de julho, a argentina Cocos Capital anunciou acordo para adquirir ativos da Warren, incluindo infraestrutura da Corretora Renascença e operações de asset management e mercado de capitais.
A conclusão ainda depende das aprovações regulatórias brasileiras.
A Cocos possui mais de 2 milhões de clientes na Argentina e informou receita de US$ 49,7 milhões e Ebitda ajustado de US$ 25 milhões em 2025.
Segundo a própria empresa, a operação será financiada com capital próprio e terá estrutura envolvendo dinheiro e ações.
O ponto mais interessante está na justificativa apresentada pela companhia: o Brasil é considerado um mercado-chave justamente por possuir o maior mercado de capitais da região.
É um exemplo clássico de crescimento inorgânico.
Em vez de gastar anos construindo uma corretora brasileira desde o início, a companhia argentina utiliza uma aquisição para acelerar sua entrada no país.
InterCement mostra outro lado das oportunidades
Há ainda situações em que as oportunidades aparecem em empresas que enfrentaram dificuldades financeiras.
Em abril, a InterCement concluiu a implementação de seu plano de recuperação judicial.
Com a reestruturação, a LATCEM, veículo de investimentos liderado pelo empresário argentino Marcelo Mindlin, juntamente com a Redwood Capital Management e fundos administrados pela Moneda Patria Investments, passou a integrar o grupo dos principais acionistas.
Os investidores realizaram ainda aporte de US$ 110 milhões.
A dívida foi reestruturada até 2031 e a companhia passou a ter um período de cinco anos sem vencimentos relevantes.
A InterCement é a terceira maior produtora de cimento do Brasil e também controla a Loma Negra, uma das maiores fabricantes do setor na Argentina.
Para um comprador estratégico, uma empresa passando por reestruturação pode oferecer uma oportunidade rara: entrar em um ativo de grande porte que dificilmente estaria disponível em condições normais de mercado.
Juros de 14% mudam a matemática das empresas brasileiras
Outro elemento importante está no custo do dinheiro no Brasil.
Em 5 de agosto, o Banco Central reduziu a Selic para 14% ao ano, mas a taxa continua elevada.
Para uma empresa endividada, juros altos representam aumento das despesas financeiras.
Para quem deseja investir em uma nova fábrica, contratar pessoas ou adquirir concorrentes, o custo do capital também aumenta.
E existe ainda um terceiro efeito importante: o valuation das empresas pode cair.
Na avaliação de uma companhia, analistas normalmente calculam quanto seus fluxos de caixa futuros valem hoje.
Quanto maior a taxa de desconto utilizada nesses cálculos, menor tende a ser o valor presente desses fluxos.
Em termos simples:
juros altos podem tornar empresas mais baratas do ponto de vista financeiro, principalmente negócios muito dependentes de crédito ou de crescimento futuro.
Isso não significa que toda companhia brasileira esteja barata.
Mas significa que compradores com caixa e capacidade de financiamento podem encontrar situações interessantes.
O comprador com dinheiro ganha poder em períodos de juros elevados
Imagine duas empresas semelhantes.
A primeira precisa financiar uma aquisição utilizando crédito a juros elevados.
A segunda possui recursos próprios ou acesso a capital mais barato.
O mesmo ativo pode ser pouco atrativo para a primeira e extremamente interessante para a segunda.
Essa diferença de custo de capital ajuda a explicar por que períodos de juros altos frequentemente criam oportunidades para compradores estratégicos.
O Brasil oferece atualmente exatamente essa combinação: empresas de alta qualidade, mercado enorme e determinadas companhias enfrentando pressão financeira.
M&A brasileiro movimenta R$ 186 bilhões
Apesar das dificuldades econômicas, seria equivocado afirmar que existe uma liquidação generalizada de empresas brasileiras.
Os números mostram um cenário mais sofisticado.
Segundo a TTR Data, o Brasil registrou 744 transações até julho de 2026, movimentando aproximadamente R$ 186,2 bilhões.
O número de negócios caiu 30% em relação ao mesmo período de 2025, mas o capital movimentado aumentou aproximadamente 8%.
Além disso, os investimentos de fundos estrangeiros de Private Equity e Venture Capital em empresas brasileiras cresceram 31%.
Os Estados Unidos continuam sendo, de longe, o maior comprador estrangeiro no país, com 78 operações registradas no período.
Portanto, os argentinos fazem parte de um movimento maior de capital internacional em busca de ativos brasileiros.
Menos negócios, mas cheques maiores
Esse comportamento revela outra característica interessante do mercado de 2026.
Há menos transações, mas valores maiores sendo movimentados.
No primeiro semestre, foram registradas 593 transações no Brasil, com cerca de R$ 166,8 bilhões mobilizados. O volume de operações caiu 35%, enquanto o capital movimentado aumentou.
Isso sugere maior seletividade dos compradores.
Em vez de simplesmente comprar qualquer empresa disponível, investidores estão procurando ativos com características específicas:
posição dominante em determinados mercados, marcas fortes, tecnologia, infraestrutura, carteira de clientes ou possibilidade clara de geração de sinergias.
O que é valuation e por que ele importa nesses negócios?
Valuation é o processo utilizado para estimar quanto uma empresa vale.
Em uma aquisição, não basta perguntar qual foi o faturamento do negócio.
Os investidores avaliam fatores como:
- receita;
- Ebitda;
- fluxo de caixa;
- endividamento;
- margem;
- crescimento esperado;
- participação de mercado;
- valor das marcas;
- carteira de clientes;
- tecnologia;
- riscos;
- sinergias com o comprador.
Uma empresa pode valer R$ 500 milhões para um investidor financeiro e R$ 700 milhões para um concorrente estratégico, por exemplo.
Isso acontece porque o concorrente pode enxergar ganhos que o primeiro comprador não conseguiria capturar.
Ele pode eliminar estruturas duplicadas, utilizar a mesma rede de distribuição, negociar melhor com fornecedores ou vender seus produtos para uma carteira já existente.
É a chamada sinergia de M&A.
Por que comprar pode ser melhor do que construir?
Existe outro cálculo fundamental.
Imagine uma fintech argentina querendo conquistar o mercado brasileiro.
Ela poderia iniciar a operação do zero.
Precisaria obter autorizações, desenvolver infraestrutura, contratar centenas de profissionais, adquirir clientes, investir em marketing e construir reputação.
Isso poderia levar anos.
Ou poderia adquirir uma empresa que já possui boa parte dessa estrutura.
Por isso, empresas frequentemente aceitam pagar um prêmio sobre o valuation de mercado de um negócio.
Elas não estão comprando apenas o patrimônio da companhia.
Estão comprando tempo.
Quais setores brasileiros podem continuar atraindo compradores?
Observando os movimentos recentes e os dados do mercado de fusões e aquisições, algumas áreas merecem atenção.
Tecnologia e serviços digitais
Internet, software e serviços de tecnologia estão entre os setores mais ativos no mercado brasileiro de M&A.
São negócios que permitem escala regional e, em muitos casos, crescimento com investimento incremental relativamente baixo.
Serviços financeiros
Fintechs, gestoras, corretoras e empresas de infraestrutura financeira continuam sendo estratégicas.
O caso Cocos/Warren demonstra o interesse de empresas regionais pelo tamanho do sistema financeiro brasileiro.
Saúde e farmacêuticas
O envelhecimento populacional, tamanho do mercado e demanda relativamente resiliente tornam saúde e medicamentos setores naturalmente interessantes para investidores estratégicos.
A aquisição da Cellera é um exemplo.
Infraestrutura
Cimento, energia, saneamento, transportes e logística exigem grandes investimentos, mas oferecem ativos difíceis de replicar.
A reestruturação da InterCement mostra como investidores podem entrar nesses setores aproveitando situações especiais.
Empresas em recuperação ou altamente endividadas
Também pode crescer o chamado distressed M&A, aquisição de ativos ou companhias que passam por dificuldades financeiras.
Juros elevados tendem a acelerar esse tipo de negociação.
O Brasil está barato para os estrangeiros?
A resposta mais correta é: alguns ativos, sim; o país inteiro, não.
O Brasil continua apresentando riscos fiscais, políticos, cambiais e regulatórios.
Além disso, empresas de alta qualidade frequentemente negociam com valuations elevados justamente porque há muitos interessados.
O que existe é uma combinação particular de fatores.
Juros elevados pressionam determinados negócios.
Ao mesmo tempo, o tamanho do mercado brasileiro cria enorme potencial de geração de receita.
Para investidores capitalizados e com visão de longo prazo, essa combinação pode produzir oportunidades.
Uma mudança histórica na relação Brasil-Argentina
Talvez o aspecto mais curioso desse novo ciclo seja justamente a inversão do papel tradicional entre os dois países.
Durante décadas, empresários brasileiros aproveitaram crises argentinas para ampliar sua presença no país vizinho.
Agora, empresas argentinas começam a utilizar sua recuperação financeira para buscar ativos do lado brasileiro da fronteira.
Ainda é cedo para afirmar que essa inversão se tornou permanente.
Mas os 18 investimentos argentinos realizados no Brasil em 2025 e as operações anunciadas ou concluídas em 2026 mostram que já existe uma mudança relevante no mapa regional de fusões e aquisições.
E o movimento não deve ser analisado apenas como uma disputa entre Brasil e Argentina.
Ele revela algo maior sobre o mundo empresarial:
quando o custo do capital, o câmbio e os valuations mudam, o mapa de quem compra e de quem vende também muda.
Para empresários brasileiros, o momento pode significar oportunidades de encontrar sócios internacionais, levantar capital ou vender operações.
Para investidores argentinos, significa acesso ao maior mercado da América Latina.
E para quem acompanha economia e investimentos, esses negócios ajudam a mostrar como juros e decisões de política econômica acabam chegando até uma das decisões mais importantes do capitalismo: quanto vale uma empresa — e quem está disposto a comprá-la.
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