A produção brasileira de grãos na safra 2025/26 deve alcançar o recorde de 361,7 milhões de toneladas, segundo o 12º levantamento divulgado pela Companhia Nacional de Abastecimento.
O volume representa crescimento de 2,6% em relação à temporada anterior e acréscimo de aproximadamente 9,2 milhões de toneladas. Na comparação com a estimativa divulgada em agosto, houve uma elevação de 0,3%.
A notícia parece indicar que os preços dos alimentos necessariamente cairão. A relação, entretanto, é mais complexa.
O recorde foi impulsionado principalmente por soja, milho, algodão e sorgo. Arroz, feijão e trigo, produtos importantes para a alimentação das famílias, apresentaram queda de produção.
Além disso, o preço que chega ao supermercado inclui transporte, armazenamento, processamento, embalagem, impostos, câmbio e margens comerciais.
Uma safra maior aumenta a oferta e pode reduzir pressões, mas não garante queda imediata e generalizada dos alimentos.
Quais produtos levaram a safra ao recorde?
A produção de soja deve alcançar 180,4 milhões de toneladas, o maior volume da série histórica da Conab.
O resultado representa crescimento de 5,2% sobre a temporada anterior. A área plantada aumentou 2,7% e a produtividade avançou 2,5%.
As exportações brasileiras de soja podem alcançar 116,2 milhões de toneladas. Isso mostra que grande parte da produção está conectada à demanda internacional.
O milho também apresentou desempenho forte. A produção total foi estimada em 144 milhões de toneladas, crescimento de 2%.
A primeira safra registrou produtividade recorde, enquanto a segunda deve alcançar 112,1 milhões de toneladas, próxima dos maiores volumes históricos.
O milho possui grande importância para a alimentação animal. Uma oferta maior pode aliviar custos de produtores de frango, suínos, ovos e leite.
O efeito não ocorre imediatamente. Empresas precisam comprar o grão, formar estoques, produzir, abater, transportar e negociar com o varejo antes que a redução apareça ao consumidor.
A produção de algodão foi projetada em 4,14 milhões de toneladas de pluma, também recorde. Mesmo com redução da área plantada, a produtividade cresceu.
O sorgo deve alcançar 7,35 milhões de toneladas, avanço de 20,4%. O cultivo ganhou espaço e pode funcionar como alternativa para alimentação animal e outras utilizações.
A área total destinada aos grãos chegou a 83,5 milhões de hectares, crescimento de 1,7%. O avanço da área e da produtividade permitiu que o país colhesse mais.
A Conab confirmou a estimativa de 361,7 milhões de toneladas, mas destacou diferenças importantes entre os produtos.
Por que arroz, feijão e trigo preocupam?
A produção de arroz foi estimada em 11,08 milhões de toneladas, uma queda de 13,2% em relação à safra anterior.
A principal causa foi a redução de 14% na área plantada. O ganho de produtividade não foi suficiente para compensar a retração.
A Conab explicou que preços menos remuneradores levaram produtores a reduzir a área e migrar para culturas como soja e milho.
Essa dinâmica mostra um desafio. Preços baixos ajudam o consumidor no curto prazo, mas podem desestimular o plantio seguinte.
Se muitos produtores diminuem a área, a oferta futura cai e os preços podem voltar a subir.
No feijão, a produção deve alcançar 2,95 milhões de toneladas, recuo de 3,6%. A área cultivada caiu 5,7%, embora a produtividade tenha aumentado.
A demanda doméstica está estimada em aproximadamente 2,7 milhões de toneladas. Isso indica abastecimento suficiente, mas com margem menor para perdas, problemas climáticos ou mudanças regionais.
O trigo apresenta a situação mais delicada. A produção deve cair 27,1%, para 5,74 milhões de toneladas.
A área cultivada encolheu 21,2% e a produtividade também diminuiu. Como o Brasil consome mais trigo do que produz, as importações foram estimadas em 7,06 milhões de toneladas.
O trigo é utilizado em pão, massas, biscoitos e farinha. Seu preço depende da safra nacional, do dólar, do mercado internacional e dos custos de transporte.
Assim, uma safra total recorde pode conviver com pressões em alimentos específicos. Somar soja, milho, arroz, feijão, trigo e outras culturas em um único número esconde essas diferenças.
Por que uma safra maior não derruba automaticamente os preços?
O primeiro motivo é a exportação. Produtos como soja e milho são negociados internacionalmente e possuem preços influenciados pelo dólar e pelas cotações globais.
Se a demanda externa estiver forte, exportar pode ser mais vantajoso. O preço doméstico acompanha essa oportunidade.
Um real desvalorizado aumenta a receita do produtor em moeda nacional e pode sustentar preços internos mesmo com uma produção elevada.
O segundo fator é a logística. Os grãos precisam sair das fazendas, passar por armazéns, transportadoras, portos, indústrias e centros de distribuição.
O Brasil possui distâncias continentais e forte dependência das rodovias. Diesel caro aumenta o custo do frete.
O petróleo acima de US$ 100 adiciona uma nova preocupação. Se o diesel subir, parte do benefício obtido com a safra poderá ser absorvido pelo transporte.
O armazenamento também influencia. Uma colheita recorde exige capacidade para guardar o produto sem perda de qualidade.
Quando faltam silos próximos às áreas produtoras, agricultores podem ser obrigados a vender rapidamente ou transportar os grãos por longas distâncias.
O terceiro fator é o processamento. O consumidor não compra soja em grão quando adquire óleo, margarina ou alimento industrializado. Existem etapas de esmagamento, produção, embalagem e distribuição.
No pão, o trigo representa apenas uma parte do custo. Energia, mão de obra, aluguel, embalagem e margem do estabelecimento também entram no preço.
O quarto fator são as condições do varejo. Supermercados compram produtos em períodos diferentes e mantêm estoques. A redução no atacado pode demorar para chegar às prateleiras.
Por isso, uma safra maior tende a ajudar, mas o repasse não é imediato nem integral.
Quais alimentos podem sentir os efeitos?
A oferta elevada de milho pode beneficiar cadeias de proteína animal. Frango, carne suína, ovos e leite dependem de ração produzida com milho e farelo de soja.
Se a alimentação dos animais ficar mais barata, produtores podem reduzir custos. O efeito dependerá de energia, sanidade, mão de obra, transporte e demanda.
O óleo de soja também pode receber algum alívio com a produção recorde, mas exportações, biodiesel e mercado internacional influenciam.
O arroz pode seguir trajetória diferente, devido à redução expressiva da produção. Estoques e importações poderão compensar parte do recuo, mas o produto exige acompanhamento.
No feijão, a oferta projetada ainda supera o consumo estimado. Porém, diferenças entre variedades, regiões produtoras e épocas de colheita podem causar oscilações.
No trigo, a dependência de importações aumenta a exposição ao dólar. Se a moeda americana subir após a alta dos juros nos Estados Unidos, farinha, pão e massas podem enfrentar pressão.
Também não se deve confundir safra de grãos com produção de frutas, verduras e legumes. Esses alimentos dependem de outras condições e possuem alta sensibilidade ao clima.
Chuvas excessivas, calor, geadas e problemas de transporte podem mudar rapidamente os preços de produtos frescos.
A safra recorde ajuda principalmente a reduzir o risco de falta generalizada de grãos. Ela não impede oscilações em categorias específicas.
O clima ainda pode mudar o cenário?
O levantamento incorporou uma temporada praticamente concluída, mas algumas culturas ainda estavam no campo. A Conab continuará atualizando as estimativas.
O clima apresentou comportamentos diferentes pelo país. O tempo seco favoreceu a colheita em partes do Centro-Oeste e do Sudeste.
Na Região Sul, o excesso de chuvas prejudicou áreas de trigo. Também ocorreram geadas, especialmente no Rio Grande do Sul.
Para os próximos meses, a persistência do El Niño pode provocar chuvas acima da média no Sul e precipitações abaixo da média em áreas do Norte e Nordeste.
Isso importa para a safra seguinte. Uma produção recorde em 2025/26 não garante o mesmo resultado em 2026/27.
Produtores também avaliam preços antes de decidir o plantio. Se arroz e feijão oferecerem baixa remuneração, a área poderá continuar pressionada.
Políticas de estoques, crédito rural, seguro, infraestrutura e preços mínimos podem ajudar a reduzir oscilações.
Para o consumidor, a conclusão é equilibrada: a safra recorde é positiva e pode aliviar alguns custos, especialmente nas cadeias de soja, milho e proteína animal.
Contudo, arroz, feijão e trigo não acompanharam o crescimento total. Câmbio, petróleo, clima e logística também continuarão determinando o preço nas prateleiras.
Os alimentos poderão ficar mais baratos em algumas categorias, mas não existe garantia de uma queda geral. O recorde reduz pressões, mas não controla sozinho toda a inflação alimentar.
Fontes: Conab – 12º levantamento da safra 2025/26 e Boletim completo da safra.











