Casas Bahia, Marabraz e Tok&Stok colocaram novamente as recuperações judiciais no centro do debate. Juros ainda elevados, crédito caro, endividamento acumulado, margens apertadas e problemas estruturais ajudam a explicar o aumento do estresse financeiro entre empresas brasileiras.
O avanço dos problemas financeiros de grandes empresas brasileiras voltou a chamar a atenção do mercado. Em poucas semanas, nomes conhecidos do consumidor, como Casas Bahia e Marabraz, entraram com pedidos de recuperação judicial, enquanto o grupo responsável por Tok&Stok e Mobly já havia recorrido ao mecanismo anteriormente em 2026. Os casos reforçaram a percepção de uma possível onda de empresas em dificuldades e levantaram uma pergunta que interessa a empresários, investidores e consumidores: por que tantas companhias estão enfrentando problemas para pagar suas dívidas?
A resposta não está em um único fator. A combinação de juros elevados durante um período prolongado, custo elevado do crédito empresarial, consumidores endividados, desaceleração de determinados segmentos, necessidade constante de capital de giro e empresas que chegaram ao atual ciclo econômico carregando dívidas elevadas criou um ambiente especialmente difícil para negócios mais alavancados. Em alguns casos, problemas de governança, estratégias de expansão equivocadas e modelos de negócio pouco adaptados às transformações do mercado aumentaram ainda mais a pressão.
Os números mostram que existe, de fato, um quadro relevante de estresse financeiro. Em 2025, 977 processos de recuperação judicial envolveram 2.466 empresas no Brasil, segundo levantamento da Serasa Experian. Foi o maior número de empresas envolvidas em recuperações judiciais da série histórica da instituição e uma alta de 13% na comparação com 2024. O número de processos foi o maior desde 2016.
Entretanto, é importante evitar uma conclusão precipitada. Os dados disponíveis de 2026 não mostram uma explosão uniforme dos pedidos em relação ao ano anterior. Segundo informações do Ministério da Fazenda divulgadas em agosto, nos primeiros quatro meses de 2026 houve queda de 29,5% nas recuperações judiciais em comparação com o mesmo período de 2025. Dados da Serasa contabilizam 268 processos envolvendo 602 CNPJs até abril. O que aumentou significativamente nas últimas semanas foi a repercussão de casos envolvendo empresas muito conhecidas.
Ao mesmo tempo, existe outro indicador que merece ainda mais atenção: a inadimplência empresarial.
Mais de 9,1 milhões de empresas estão inadimplentes
Em junho de 2026, o Brasil superou a marca de 9,1 milhões de empresas inadimplentes, o maior número da série histórica da Serasa Experian. Essas companhias acumulavam R$ 232,9 bilhões em dívidas negativadas. Cada empresa inadimplente possuía, em média, 7,3 contas em atraso e uma dívida média de aproximadamente R$ 25,5 mil.
O cenário é ainda mais delicado entre os pequenos negócios. Dos mais de 9,1 milhões de CNPJs inadimplentes, aproximadamente 8,6 milhões eram micro e pequenas empresas, responsáveis por R$ 201,4 bilhões em dívidas negativadas. Os números ajudam a mostrar que o problema não está restrito às grandes companhias que aparecem nas manchetes. Existe uma enorme quantidade de pequenos empresários tentando administrar caixa, fornecedores, empréstimos, impostos e custos operacionais em um ambiente financeiro restritivo.
A trajetória também mostra que o problema vem se formando há algum tempo. O Brasil terminou 2025 com cerca de 8,9 milhões de empresas inadimplentes e R$ 213 bilhões em dívidas negativadas. Naquele momento, havia aproximadamente 2 milhões de empresas inadimplentes a mais que no final de 2024.
Isso ajuda a entender por que algumas empresas começam 2026 financeiramente fragilizadas. A recuperação judicial costuma ser uma etapa relativamente avançada de uma deterioração que pode ter começado vários trimestres antes.
Recuperação judicial não significa falência
Apesar da expressão frequentemente utilizada de que determinada empresa “quebrou”, recuperação judicial e falência são situações diferentes.
A Lei nº 11.101 determina que a recuperação judicial tem como objetivo permitir a superação da crise econômico-financeira do devedor, buscando preservar a atividade empresarial, os empregos e os interesses dos credores. Portanto, a empresa que pede recuperação judicial está justamente tentando evitar que uma crise de liquidez ou endividamento termine em falência.
Durante o processo, dívidas podem ser renegociadas, vencimentos alongados, ativos vendidos e diferentes medidas de reestruturação discutidas com os credores. A empresa pode continuar vendendo produtos, prestando serviços e mantendo funcionários enquanto procura reorganizar seu balanço.
Também existe diferença entre pedir recuperação judicial e ter o processamento da recuperação deferido pela Justiça. Em 25 de agosto, por exemplo, a Secretaria Nacional do Consumidor informou que monitorava os casos de Casas Bahia, Tok&Stok e Marabraz justamente pelos potenciais efeitos sobre consumidores.
Portanto, um pedido de recuperação não significa automaticamente encerramento das atividades.

Juros de 14% continuam pesando sobre as empresas
Um dos principais elementos desse ambiente é a taxa de juros.
Em agosto de 2026, o Banco Central reduziu a Selic para 14% ao ano. Embora o ciclo de cortes já tenha começado, o próprio Copom destacou que as condições monetárias permanecem restritivas e que a atividade econômica mostra sinais de moderação.
Para uma empresa endividada, a diferença entre juros baixos e juros elevados pode significar milhões ou bilhões de reais em despesas financeiras adicionais. Uma companhia que depende constantemente de capital de giro, antecipação de recebíveis, financiamentos ou renegociações precisa refinanciar parte de suas obrigações periodicamente. Quando o custo desse dinheiro aumenta, a dívida começa a consumir uma parcela crescente da geração operacional de caixa.
Os números do Banco Central mostram a dimensão desse custo. Em junho, a taxa média das novas operações de crédito livre para empresas estava em 24,4% ao ano. A inadimplência do crédito às pessoas jurídicas atingia 3,2% da carteira total e chegava a 4% nas operações com recursos livres.
Para entender o impacto, basta imaginar uma empresa que precise manter R$ 100 milhões financiados. Se seu custo efetivo de dívida aumenta de 10% para 20% ao ano, a despesa financeira teórica passa de R$ 10 milhões para R$ 20 milhões, antes de considerar amortizações, tarifas ou outros encargos.
Uma empresa pode continuar vendendo e até apresentar resultado operacional positivo, mas ainda assim entrar em dificuldade porque a geração de caixa não é suficiente para pagar os juros e amortizar o principal das dívidas.
Crédito existe, mas ficou mais caro e seletivo
Existe uma diferença importante entre dizer que não há dinheiro disponível e dizer que o dinheiro está caro.
O crédito para empresas não desapareceu. Segundo o Banco Central, o estoque de crédito para pessoas jurídicas chegou a aproximadamente R$ 2,7 trilhões em junho e avançou 7,9% em 12 meses. Entretanto, as condições financeiras continuam exigentes, principalmente para empresas percebidas pelos bancos como mais arriscadas.
Quanto mais endividada uma companhia fica, maior tende a ser o risco percebido. O credor pode exigir juros mais altos, garantias adicionais ou simplesmente decidir não renovar determinada linha de crédito. Surge então um círculo perigoso: a empresa precisa de dinheiro porque o caixa está pressionado, mas exatamente por estar pressionada encontra condições piores para captar recursos.
O Banco Central também reduziu sua projeção para o crescimento do crédito livre às empresas em 2026, apontando uma desaceleração nessa modalidade. Além dos juros, o relatório de política monetária registrou aumento dos spreads em emissões corporativas em determinados momentos do ano, evidenciando maior percepção de risco por parte do mercado.
Para companhias que dependem de refinanciamento frequente, essa mudança pode ser decisiva.
O efeito duplo dos juros sobre o varejo
Poucos segmentos sentem os juros de forma tão direta quanto o varejo de bens duráveis.
Empresas de móveis, eletrodomésticos e outros produtos de maior valor são afetadas dos dois lados. Primeiro, pagam mais caro para financiar estoque, capital de giro e dívidas corporativas. Segundo, seus próprios clientes encontram financiamentos mais caros e ficam menos dispostos ou menos capazes de realizar compras parceladas.
É uma combinação especialmente difícil.
Uma geladeira, um sofá ou um televisor pode ter sua compra adiada por meses quando o orçamento familiar está apertado. Já gastos com alimentos e medicamentos têm comportamento diferente, porque são necessidades mais difíceis de postergar.
Isso ajuda a explicar por que não é correto falar em colapso de todo o varejo brasileiro. Dados do IBGE mostram que as vendas varejistas cresceram 0,5% em junho na comparação com maio e 2,9% sobre junho de 2025. No primeiro semestre, houve crescimento de 1,9%. Por outro lado, o segundo trimestre apresentou queda de 0,4% sobre os três meses anteriores, mostrando perda de ritmo.
Portanto, o problema é mais seletivo: determinados modelos de negócio estão sofrendo muito mais que outros.
Casas Bahia mostra como dívida e juros podem se combinar
O caso do Grupo Casas Bahia tornou-se o maior símbolo recente dessa situação.
A companhia protocolou pedido de recuperação judicial em 16 de agosto para reestruturar aproximadamente R$ 17,3 bilhões em dívidas. Em sua comunicação ao mercado, a empresa apontou deterioração das condições financeiras em um ambiente de juros elevados, restrição de crédito, aumento dos custos financeiros e pressão sobre consumo e capital de giro.
A empresa já havia realizado uma recuperação extrajudicial em 2024, mas acabou recorrendo posteriormente ao Judiciário.
O caso também mostra que fatores macroeconômicos nem sempre explicam tudo. Empresas concorrentes enfrentam a mesma Selic, o mesmo ambiente de crédito e o mesmo consumidor. A diferença está na estrutura de endividamento, eficiência operacional, decisões de investimento, capacidade de adaptação e modelo de negócios de cada companhia.
Especialistas têm apontado, no caso da Casas Bahia, que a dependência de uma grande rede física, a necessidade de transformação digital e problemas acumulados ao longo dos anos também precisam ser considerados juntamente com os juros.
Em outras palavras: juros elevados podem transformar uma fragilidade existente em uma crise, mas raramente são a única causa dela.
Marabraz: quando falta garantia para renovar o crédito
Outro exemplo é a Marabraz.
A rede protocolou pedido de recuperação judicial em agosto envolvendo aproximadamente R$ 140 milhões em dívidas. Além do ambiente de juros elevados e consumo mais fraco, a empresa relatou problemas relacionados a disputas societárias e familiares que afetaram sua capacidade de utilizar determinados ativos como garantias para obter novos financiamentos.
O caso é importante porque demonstra como o acesso ao crédito depende não apenas dos juros, mas também de garantias.
Uma companhia pode possuir lojas, estoque e vendas, mas, se perder acesso às garantias utilizadas historicamente nas negociações bancárias, pode encontrar dificuldade para renovar linhas de capital de giro. Se dívidas antigas vencem e novos empréstimos não chegam, surge uma crise de liquidez.
Esse tipo de situação explica por que uma empresa pode ter uma operação comercial aparentemente viável e ainda assim precisar recorrer à recuperação judicial.
Tok&Stok e Mobly: dívida superior a R$ 1 bilhão
O Grupo Toky, controlador de Tok&Stok e Mobly, também entrou em recuperação judicial em 2026, com dívida superior a R$ 1 bilhão. O processamento do pedido foi aprovado pela Justiça em junho.
No segundo trimestre, o grupo registrou prejuízo líquido de R$ 232,7 milhões e Ebitda ajustado negativo, enquanto continuava seu processo de reestruturação financeira.
Novamente aparecem características comuns ao varejo de bens duráveis: necessidade de estoque, estrutura física relevante, dependência do consumo e exposição ao crédito.
Quando essas características são combinadas com dívida elevada, o risco aumenta significativamente.
O problema vai muito além do varejo
Apesar da enorme repercussão dos casos de Casas Bahia, Marabraz e Tok&Stok, os dados mostram que o varejo não é o único setor pressionado.
Entre os 2.466 CNPJs envolvidos em recuperações judiciais durante 2025, 30,1% pertenciam à agropecuária, 30% aos serviços, 21,7% ao comércio e 18,2% à indústria. Portanto, agropecuária e serviços representaram juntos aproximadamente 60% das empresas envolvidas.
A situação do agronegócio merece atenção particular. Considerando produtores rurais pessoas físicas, produtores pessoas jurídicas e empresas relacionadas à cadeia, a Serasa registrou 1.990 solicitações de recuperação judicial em 2025, aumento de 56,4% sobre 2024 e maior volume da série histórica iniciada em 2021.
No agro, a lógica possui particularidades próprias. O setor trabalha com ciclos produtivos longos, exposição climática, custos elevados de insumos e financiamento significativo para plantio e expansão. Se preços de commodities caem, a produtividade decepciona ou o custo do crédito sobe rapidamente, empresas e produtores muito alavancados podem perder capacidade de pagamento.
Margem apertada faz qualquer aumento do custo financeiro pesar mais
Uma das chaves para entender uma recuperação judicial é olhar para a margem de lucro.
Imagine uma companhia que vende R$ 1 bilhão por ano, mas termina suas operações com margem de apenas 3%. Isso representa R$ 30 milhões de resultado. Se despesas financeiras aumentarem R$ 40 milhões no mesmo período, uma operação que parecia saudável pode rapidamente apresentar prejuízo.
É por isso que negócios com margens baixas são particularmente vulneráveis a juros elevados.
Varejo, transporte, construção, determinadas indústrias e outras atividades podem movimentar grandes volumes financeiros e ainda operar com margens relativamente estreitas. Pequenas mudanças no custo da dívida, no preço dos insumos ou no volume vendido produzem grandes efeitos no resultado final.
Quando a empresa já está endividada, existe pouco espaço para erro.
Capital de giro pode ser tão importante quanto lucro
Outro conceito essencial é o capital de giro.
Uma empresa pode vender hoje e receber do cliente daqui a 30, 60 ou 90 dias, enquanto precisa pagar fornecedores, salários, aluguel, energia e impostos antes desse dinheiro entrar.
Essa diferença precisa ser financiada.
Empresas com grande quantidade de estoque enfrentam desafio ainda maior. Dinheiro utilizado para comprar produtos fica imobilizado até que a mercadoria seja vendida e o pagamento do consumidor chegue ao caixa.
Em períodos de crédito barato, financiar esse ciclo pode ser relativamente simples. Com juros elevados e bancos mais seletivos, financiar estoque e contas a receber se torna muito mais caro.
Uma empresa pode, portanto, apresentar vendas e até lucro contábil e, ao mesmo tempo, enfrentar falta de dinheiro para cumprir obrigações de curto prazo.
É a chamada crise de liquidez.
Empresas que cresceram usando dívida agora enfrentam outra realidade
Durante períodos de dinheiro mais barato, diversas empresas aceleraram expansão financiando aquisições, novas unidades, estoques e investimentos com dívida.
Essa estratégia pode funcionar enquanto a empresa cresce rapidamente e consegue refinanciar os vencimentos em condições favoráveis.
O problema surge quando as taxas aumentam.
Dívidas antigas vencem e precisam ser substituídas por novas operações mais caras. Ao mesmo tempo, a economia pode desacelerar e dificultar o crescimento das receitas. A relação entre dívida e geração de caixa piora.
É exatamente nessa situação que o conceito de alavancagem financeira ganha importância.
Uma companhia pode usar dívida para crescer mais rapidamente. Entretanto, quanto maior a alavancagem, menor o espaço para enfrentar períodos prolongados de juros altos ou queda da demanda.
Por que uma redução da Selic não resolve imediatamente o problema?
A Selic já começou a cair, mas isso não significa que empresas endividadas recuperem sua saúde financeira de um mês para o outro.
Primeiro, 14% ao ano ainda representa uma taxa elevada.
Segundo, muitas dívidas possuem contratos próprios e seus custos não acompanham instantaneamente cada decisão do Banco Central.
Terceiro, uma empresa que perdeu credibilidade financeira pode continuar enfrentando spreads maiores mesmo quando a taxa básica cai.
E quarto, dívidas acumuladas durante anos continuam no balanço.
A própria Serasa destacou que, apesar do início da flexibilização monetária, as condições financeiras permanecem restritivas e a recuperação das empresas depende de renegociação de passivos, recomposição do caixa e recuperação da capacidade de pagamento.
Ou seja, existe uma defasagem entre queda da Selic e melhora efetiva da saúde financeira das companhias.
O Brasil está diante de uma crise empresarial generalizada?
Os dados disponíveis recomendam cautela.
Existem sinais evidentes de estresse: inadimplência empresarial recorde, milhares de empresas envolvidas em recuperações judiciais, grandes varejistas recorrendo à Justiça e setores muito alavancados enfrentando dificuldades.
Por outro lado, não há evidência suficiente para afirmar que toda a economia empresarial brasileira esteja entrando em colapso.
O varejo ainda apresenta crescimento anual, o crédito para empresas continua expandindo e os pedidos de recuperação judicial nos primeiros meses de 2026 ficaram abaixo do mesmo período do ano anterior.
A situação é melhor descrita como uma crise seletiva de balanços.
Empresas com baixa dívida, boa geração de caixa e modelos eficientes possuem maior capacidade de atravessar o ciclo. Já negócios muito alavancados, com margens pequenas, necessidade elevada de capital de giro ou problemas de gestão encontram uma situação muito mais delicada.
Quais sinais indicam que uma empresa pode estar entrando em dificuldade?
Para investidores, gestores e fornecedores, alguns indicadores merecem acompanhamento. O primeiro é a relação entre dívida e geração operacional de caixa. Quando a dívida cresce enquanto o Ebitda diminui, aumenta o risco de a empresa perder capacidade de honrar seus compromissos.
Outro sinal é o aumento contínuo das despesas financeiras. Uma companhia pode melhorar vendas e margem operacional e, mesmo assim, apresentar resultados cada vez piores porque os juros consomem o lucro.
Também merecem atenção a deterioração do fluxo de caixa operacional, renegociações frequentes, venda acelerada de ativos, fechamento de unidades, dificuldade para pagar fornecedores e alongamento excessivo de prazos.
Nenhum desses fatores isoladamente determina uma recuperação judicial, mas a combinação de vários deles costuma indicar aumento de risco.
O que gestores podem aprender com essa onda de reestruturações?
Os casos recentes deixam uma mensagem especialmente relevante para quem administra empresas: lucro não substitui caixa e crescimento não substitui solidez financeira.
Uma companhia pode crescer rapidamente e ainda criar uma estrutura de capital insustentável. Pode aumentar faturamento e perder dinheiro. Pode ter patrimônio relevante e enfrentar falta de liquidez. Também pode operar normalmente durante anos até que um ciclo de juros altos exponha fragilidades que antes estavam escondidas.
Manter reservas, alongar vencimentos, evitar concentração excessiva de dívidas de curto prazo e acompanhar indicadores de alavancagem são decisões menos chamativas que inaugurar novas unidades ou fazer aquisições, mas podem determinar quem sobreviverá ao próximo ciclo econômico.
Outro aprendizado é que refinanciamento não deve ser tratado como algo garantido. Uma empresa que depende permanentemente da possibilidade de substituir uma dívida antiga por uma nova está exposta às mudanças do mercado financeiro.
Juros são parte do problema, mas gestão continua sendo decisiva
É tentador atribuir todas as recuperações judiciais à Selic.
Os juros elevados têm papel evidente. Eles aumentam despesas financeiras, encarecem capital de giro, reduzem o acesso ao crédito e pressionam consumidores.
Mas empresas que operam no mesmo setor e no mesmo ambiente macroeconômico podem apresentar resultados completamente diferentes.
Isso acontece porque endividamento, governança, eficiência, transformação digital, estratégia comercial, estrutura de custos e qualidade da gestão também fazem diferença.
Os casos recentes mostram justamente essa combinação.
A Casas Bahia citou juros, crédito restritivo e aumento dos custos financeiros, mas enfrenta também desafios estruturais de seu modelo de negócios. A Marabraz enfrenta fatores macroeconômicos, mas também problemas societários que atingiram sua capacidade de oferecer garantias. Tok&Stok e Mobly lidam com um setor altamente competitivo e uma estrutura financeira pressionada.
Portanto, os juros podem funcionar como o elemento que expõe ou acelera uma crise, mas dificilmente explicam tudo sozinhos.
O alerta que fica para 2026
O Brasil entra na reta final de 2026 com uma combinação aparentemente contraditória. A Selic começou a cair, o varejo continua apresentando crescimento anual e o número de pedidos de recuperação nos primeiros meses diminuiu na comparação anual. Ao mesmo tempo, a inadimplência das empresas atingiu nível recorde, grandes grupos empresariais recorreram à Justiça e o crédito segue muito caro.
Essas duas realidades podem coexistir.
A economia brasileira não precisa estar em recessão para que empresas muito endividadas entrem em dificuldade. Basta que o crescimento de suas receitas seja menor que a expansão das despesas financeiras e que o acesso ao refinanciamento fique mais difícil.
É justamente por isso que os próximos meses serão importantes.
Se os juros continuarem caindo, a inflação permitir maior flexibilização monetária e o crédito voltar a ficar menos restritivo, parte da pressão tende a diminuir. Mas empresas que acumulam dívidas há anos provavelmente continuarão precisando vender ativos, renegociar passivos e rever modelos de negócio mesmo em um cenário monetário melhor.
A onda recente de grandes recuperações judiciais, portanto, não significa que todas as empresas brasileiras estejam quebrando.
Ela revela algo diferente e talvez mais importante: anos de endividamento, crédito caro e margens apertadas estão separando empresas financeiramente preparadas daquelas que entraram no atual ciclo econômico com pouco espaço para absorver novos choques.
E, quando o caixa acaba, a recuperação judicial deixa de ser apenas uma possibilidade jurídica e passa a ser uma tentativa de sobrevivência.
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Recuperação judicial no Brasil: por que tantas empresas estão em dificuldade em 2026?
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Casas Bahia, Marabraz e Tok&Stok reacendem o alerta sobre recuperação judicial. Entenda como juros altos, crédito caro, dívidas e margens apertadas estão pressionando empresas brasileiras.
Palavra-chave principal
recuperação judicial no Brasil
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Fontes principais da apuração
A matéria foi construída principalmente a partir dos indicadores de Serasa Experian, dados de crédito e política monetária do Banco Central, levantamento do IBGE, Lei nº 11.101/2005 disponível na Presidência da República, informações da Secretaria Nacional do Consumidor, documentos corporativos e cobertura especializada de veículos como Reuters, CNN Brasil, Folha, Exame e InfoMoney. Dados consultados até 26 de agosto de 2026.









