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Tarifas dos EUA chegam a 37,5% para produtos brasileiros: entenda os impactos sobre empresas, empregos e economia

Novas medidas comerciais atingem máquinas, calçados, móveis, madeira, confecções, açúcar e outros produtos brasileiros. Café, carnes, aeronaves e suco de laranja estão entre as principais exceções, mas empresas exportadoras já avaliam redução de produção, busca por novos mercados e possíveis cortes de empregos.

As novas tarifas impostas pelos Estados Unidos contra produtos brasileiros entraram em vigor e ampliaram a tensão comercial entre as duas maiores economias das Américas. A primeira medida estabeleceu uma sobretaxa adicional de 25% sobre determinados produtos do Brasil a partir de 22 de julho de 2026. Poucos dias depois, uma segunda decisão acrescentou uma tarifa de 12,5% relacionada a uma investigação norte-americana sobre medidas de prevenção ao trabalho forçado nas cadeias internacionais de produção.

Quando as duas cobranças atingem a mesma mercadoria, a tarifa adicional chega a 37,5%, sem considerar a tarifa ordinária que alguns produtos já pagavam para entrar no mercado norte-americano. Isso significa que o custo total de importação pode ser ainda maior, dependendo da classificação de cada item.

Segundo levantamento do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, as duas medidas alcançam aproximadamente 23,1% das exportações brasileiras destinadas aos Estados Unidos. Desse total, 16,5% estão sujeitos simultaneamente às tarifas de 25% e 12,5%, resultando na cobrança combinada de 37,5%. Outros 4,7% enfrentam somente a tarifa de 12,5%, enquanto 1,9% estão submetidos apenas à sobretaxa de 25%.

Com base no comércio de 2024, quando o Brasil exportou US$ 40,4 bilhões aos Estados Unidos, aproximadamente US$ 6,6 bilhões em produtos ficaram no grupo sujeito à tarifa combinada de 37,5%. Outros US$ 800 milhões estão expostos somente à alíquota de 25%, enquanto US$ 1,9 bilhão enfrenta apenas a cobrança de 12,5%.

Apesar da dimensão da medida, não é correto afirmar que todos os produtos brasileiros passarão a pagar 37,5%. Cerca de 52,7% das exportações brasileiras aos Estados Unidos permanecem fora das novas sobretaxas específicas ou setoriais, embora continuem sujeitas às tarifas comuns do sistema norte-americano. Outros 24,2% estão enquadrados em tarifas setoriais aplicadas a diferentes países, principalmente por meio da chamada Seção 232 da legislação comercial dos Estados Unidos.

Entre os principais produtos poupados pelas novas medidas estão café, carnes, aeronaves, suco de laranja, frutas, diversos produtos químicos, ferro fundido e a maior parte das exportações de celulose. O governo brasileiro calcula que aproximadamente dois mil produtos ficaram fora das duas novas sobretaxas.

As exceções reduzem o impacto sobre algumas das exportações brasileiras mais conhecidas, mas não eliminam os riscos para regiões e cadeias industriais altamente dependentes do mercado norte-americano. Para setores como calçados, móveis, madeira, confecções e máquinas, uma tarifa de 37,5% pode tornar contratos menos rentáveis ou até economicamente inviáveis.

Por que os Estados Unidos impuseram as novas tarifas

A tarifa de 25% foi aplicada com base na Seção 301 da Lei de Comércio dos Estados Unidos de 1974, mecanismo que permite ao governo norte-americano responder a políticas estrangeiras consideradas injustificáveis, discriminatórias ou prejudiciais ao comércio do país.

O Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos, conhecido pela sigla USTR, afirmou que a decisão foi tomada depois de uma investigação com duração aproximada de um ano. O processo analisou políticas brasileiras relacionadas ao comércio digital, aos serviços de pagamentos eletrônicos, às tarifas preferenciais concedidas a determinados países, à proteção da propriedade intelectual, à aplicação das regras anticorrupção, ao acesso do etanol norte-americano ao mercado brasileiro e ao combate ao desmatamento ilegal.

O governo dos Estados Unidos sustenta que algumas práticas brasileiras restringem ou dificultam a atuação de produtores, empresas de tecnologia, agricultores e exportadores norte-americanos. O USTR informou que promoveu audiências públicas, recebeu mais de 360 manifestações escritas e ouviu 77 participantes antes de tomar a decisão final.

O governo brasileiro contesta as acusações e considera as tarifas injustificadas. Uma das principais argumentações apresentadas pelo Brasil é que os Estados Unidos mantêm um histórico de superávits nas relações comerciais bilaterais, ou seja, vendem ao Brasil mais bens e serviços do que compram do país quando se considera o conjunto das transações.

A segunda tarifa, de 12,5%, foi aplicada dentro de uma investigação mais ampla dos Estados Unidos sobre trabalho forçado em cadeias globais de fornecimento. A medida alcançou dezenas de parceiros comerciais norte-americanos e não foi direcionada exclusivamente ao Brasil.

Para os produtos brasileiros enquadrados simultaneamente nas duas investigações, as cobranças são acumuladas. A tarifa de 12,5% substituiu uma cobrança temporária de 10% que estava em vigor desde fevereiro e expirou em 24 de julho.

A primeira medida, de 25%, passou a valer em 22 de julho. Mercadorias que já haviam sido embarcadas antes dessa data ficaram protegidas da nova cobrança desde que entrassem nos Estados Unidos até 29 de julho, conforme as regras de transição anunciadas pelas autoridades norte-americanas.

As novas medidas representam uma mudança na estratégia comercial dos Estados Unidos depois que a Suprema Corte norte-americana derrubou tarifas globais anteriormente estabelecidas por meio de poderes econômicos emergenciais. O governo de Donald Trump passou a recorrer com maior intensidade à Seção 301, que exige investigações específicas sobre práticas comerciais de cada país. O Brasil foi o primeiro país atingido por essa nova estratégia.

A lista de produtos sujeitos à tarifa de 25% inclui móveis, etanol, máquinas, calçados, açúcar e diferentes mercadorias industriais. Já a cobrança combinada de 37,5% alcança categorias como máquinas e equipamentos, vários tipos de madeira, gorduras e óleos, calçados, móveis e confecções.

Produtos como obras de pedra e gesso, minérios, óleos essenciais, artigos de perfumaria e pescados aparecem entre as mercadorias atingidas somente pela tarifa de 12,5%. O açúcar está entre os exemplos de produtos alcançados exclusivamente pela sobretaxa de 25%.

Calçados, móveis, máquinas e madeira estão entre os setores mais expostos

Embora as tarifas não atinjam a maior parte das exportações brasileiras, seus efeitos podem ser severos em determinados setores, municípios e empresas. A dependência do mercado norte-americano varia muito entre as cadeias produtivas. Uma indústria que vende somente uma pequena parcela de sua produção aos Estados Unidos pode buscar outros compradores com maior facilidade. Para uma empresa que desenvolveu produtos, certificações e linhas de produção especialmente para clientes norte-americanos, a substituição do mercado pode levar anos.

O setor de calçados é um dos principais exemplos. Os Estados Unidos compram aproximadamente um em cada cinco pares de calçados exportados pelo Brasil. Depois da confirmação das tarifas, a indústria brasileira reduziu sua projeção para as vendas externas em 2026: a expectativa passou de uma queda de 3,6% para uma retração de 7,1%.

Em Franca, no interior de São Paulo, um dos maiores polos calçadistas do país, cerca de 40% das exportações locais têm os Estados Unidos como destino. Empresários ouvidos pela Reuters estimaram que aproximadamente 650 mil pares enviados anualmente pela região poderiam ser afetados. Representantes do setor alertaram para a possibilidade de redução da produção e demissões caso a tarifa não seja renegociada ou o calçado não seja incluído entre as exceções.

O problema ocorre porque a tarifa é cobrada no momento em que o produto entra nos Estados Unidos. Em um contrato no qual o importador norte-americano é responsável pelo pagamento, ele pode exigir que a empresa brasileira reduza o preço para compensar parte do imposto. Se o exportador não aceitar, o comprador pode procurar fornecedores de países que enfrentem tarifas menores.

Uma mercadoria brasileira vendida por US$ 100, por exemplo, pode passar a gerar uma cobrança adicional de US$ 37,50 ao entrar no mercado norte-americano quando estiver sujeita às duas tarifas. O custo não precisa necessariamente ser absorvido por apenas uma das partes. Exportador, importador, distribuidor e consumidor podem dividir o impacto por meio de redução de margens e aumento do preço final.

Em produtos de menor valor agregado e com concorrência internacional intensa, uma diferença dessa magnitude pode retirar completamente a competitividade do fornecedor brasileiro. Setores como móveis, madeira processada, confecções e calçados enfrentam concorrentes localizados na Ásia, América Latina e outras regiões com custos de produção e condições tarifárias diferentes.

Máquinas e equipamentos também estão entre as categorias expostas à cobrança combinada. Esse setor tende a desenvolver relações comerciais de longo prazo, oferecer assistência técnica e produzir itens adaptados às necessidades de clientes específicos. Mesmo assim, tarifas elevadas podem adiar investimentos ou levar compradores norte-americanos a substituir fornecedores.

No caso do etanol, os Estados Unidos foram o segundo maior destino das exportações brasileiras em 2025, atrás da Coreia do Sul. O país comprou aproximadamente 253 milhões de litros, no valor de US$ 163 milhões. Representantes da indústria brasileira de açúcar e bioenergia avaliaram que a sobretaxa reduz a competitividade do produto brasileiro e representa um retrocesso na cooperação energética entre as duas economias.

As medidas chegam em um momento no qual o comércio entre Brasil e Estados Unidos já vinha perdendo força. As exportações brasileiras ao mercado norte-americano somaram US$ 17,4 bilhões no primeiro semestre de 2026, queda de 13% em comparação com o mesmo período de 2025. A redução correspondeu a aproximadamente US$ 2,6 bilhões.

Parte dessa retração ocorreu antes da entrada em vigor das novas tarifas e foi influenciada por outras medidas comerciais, pelo comportamento da demanda e pela diminuição dos embarques de petróleo e produtos siderúrgicos. As exportações brasileiras de óleos brutos de petróleo aos Estados Unidos caíram 30,4%, enquanto as vendas de produtos semiacabados, lingotes e outras formas primárias de ferro e aço recuaram 21,7% no primeiro semestre.

A participação dos Estados Unidos nas exportações totais do Brasil diminuiu de 12,1% no primeiro semestre de 2025 para 9,4% no mesmo período de 2026. Apesar da redução, o mercado norte-americano continuou sendo o principal destino internacional da indústria brasileira de transformação.

A Confederação Nacional da Indústria informou que 20 das 27 unidades da Federação venderam menos aos Estados Unidos durante o primeiro semestre. A exposição varia conforme a estrutura produtiva de cada estado. Regiões especializadas em calçados, madeira, máquinas, móveis e produtos metalúrgicos podem sofrer efeitos mais concentrados.

Para a economia brasileira como um todo, o impacto tende a ser menor do que o observado em determinadas empresas e cidades. Os Estados Unidos representam uma parcela importante, mas não dominante, das exportações do país, e mais da metade dos produtos permanece fora das novas sobretaxas. Isso reduz a possibilidade de uma crise nacional provocada exclusivamente pelas medidas comerciais.

O risco é mais elevado para empresas com pouca diversificação de clientes, contratos em dólar, margens estreitas e produção desenvolvida especificamente para o padrão norte-americano. A perda de pedidos pode atingir fornecedores de matérias-primas, embalagens, transporte, serviços e componentes, espalhando os efeitos pela cadeia produtiva.

As tarifas também podem influenciar o câmbio. Uma redução das exportações diminui a entrada de dólares no Brasil e pode pressionar o real. Entretanto, o efeito final dependerá de outros fatores mais amplos, como juros nos Estados Unidos e no Brasil, fluxo de investimentos, situação fiscal e preços das commodities.

Uma eventual valorização do dólar poderia compensar parcialmente a perda de receita dos exportadores, pois cada dólar recebido seria convertido em uma quantidade maior de reais. Ao mesmo tempo, a moeda norte-americana mais cara aumentaria o custo de máquinas, componentes e insumos importados, limitando esse benefício.

No mercado interno, mercadorias que deixarem de ser exportadas poderão aumentar a oferta disponível no Brasil. Isso pode pressionar os preços de alguns produtos para baixo. Porém, esse efeito não é garantido, principalmente quando os itens foram produzidos de acordo com padrões, medidas ou características específicas exigidas pelos compradores norte-americanos.

Na Bolsa, a consequência dependerá da exposição de cada companhia. Empresas com vendas importantes de produtos tarifados podem enfrentar revisões nas estimativas de receita e lucro. Companhias ligadas a setores poupados, como aeronaves e grande parte da celulose, tendem a ficar relativamente mais protegidas. Ainda assim, investidores precisam analisar a lista específica de produtos de cada empresa, pois uma exceção para o setor não significa que todas as mercadorias estejam automaticamente livres de cobrança.

Governo prepara crédito e busca negociação com os Estados Unidos

O governo brasileiro anunciou R$ 18,5 bilhões em financiamento para empresas atingidas pelas tarifas e por conflitos internacionais. Desse total, R$ 13,5 bilhões deverão vir do Tesouro Nacional e R$ 5 bilhões serão disponibilizados pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social. A liberação completa dos recursos depende de aprovação do Congresso Nacional.

As linhas de crédito devem apoiar capital de giro, compra de máquinas e equipamentos, investimentos produtivos e projetos destinados à abertura de novos mercados. Setores como calçados, aço e alumínio foram citados entre os potenciais beneficiários.

O financiamento pode ajudar empresas que enfrentem cancelamentos de pedidos ou precisem manter funcionários enquanto procuram novos compradores. Contudo, crédito não substitui permanentemente um mercado de exportação. As empresas precisarão avaliar se conseguem renegociar contratos, reduzir custos, modificar produtos ou redirecionar a produção.

Nesta segunda-feira, 27 de julho, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que o Brasil continuará negociando e pretende discutir o assunto com o secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, durante as próximas reuniões do G20. O ministro avaliou que uma solução poderá ocorrer depois das eleições brasileiras de outubro, mas declarou que o país não abandonará as negociações.

O USTR também afirmou que continua aberto a novas conversas, embora sustente que as medidas foram necessárias diante da falta de acordo nas negociações anteriores.

Paralelamente, o Brasil intensifica a busca por novos parceiros comerciais. Brasil e Coreia do Sul anunciaram a criação de um grupo de trabalho para acelerar as negociações de um possível acordo entre o país asiático e o Mercosul. O governo brasileiro também voltou a demonstrar interesse no avanço das discussões comerciais entre Mercosul e China.

A diversificação reduz a dependência de um único comprador, mas não oferece uma solução imediata. Produtos industriais precisam atender normas técnicas, certificações, logística e preferências específicas de cada mercado. Uma empresa que vende móveis ou calçados aos Estados Unidos pode precisar adaptar desenhos, tamanhos, embalagens, canais de distribuição e estratégias comerciais para entrar na Europa ou na Ásia.

Exportadores afetados devem começar pela identificação exata da classificação tarifária de suas mercadorias no sistema norte-americano. Não basta observar apenas o nome geral do produto, pois itens semelhantes podem receber tratamentos diferentes conforme o material, a finalidade, o processo de fabricação e o código aduaneiro.

Também é necessário revisar os contratos para descobrir quem é responsável pelo pagamento da tarifa. Dependendo do Incoterm utilizado, o custo pode ficar com o importador, com o exportador ou ser negociado entre as partes. Empresas devem calcular se ainda existe margem para conceder descontos sem transformar a venda em prejuízo.

Outro cuidado envolve a concentração das receitas. Negócios que dependem fortemente dos Estados Unidos precisam desenvolver compradores alternativos, ainda que não abandonem o mercado norte-americano. A diversificação pode incluir outros países, vendas no mercado doméstico, novos canais digitais ou mudanças no portfólio.

As empresas também devem avaliar proteção cambial, condições de financiamento, prazos de recebimento e riscos de inadimplência. Importadores norte-americanos pressionados pela nova tarifa podem pedir prazos maiores ou tentar cancelar pedidos. Antes de embarcar, o exportador precisa conferir garantias e condições de pagamento.

Para os consumidores norte-americanos, as tarifas podem significar produtos mais caros ou menor disponibilidade de determinadas mercadorias brasileiras. Parte do custo pode ser absorvida pelas empresas, mas outra parcela tende a ser repassada ao preço final, especialmente quando o produto brasileiro não possui substituto imediato.

Para o consumidor brasileiro, o efeito é mais indireto. Pode haver aumento da oferta doméstica de alguns produtos, mas uma eventual valorização do dólar encarece mercadorias importadas e insumos usados pela indústria. O resultado dependerá do tempo de duração das tarifas e da capacidade das empresas de encontrar novos mercados.

As novas medidas não devem paralisar a economia brasileira, mas representam um problema sério para empresas, trabalhadores e municípios dependentes das exportações aos Estados Unidos. O maior risco está na combinação entre tarifas elevadas, incerteza sobre futuras decisões norte-americanas e dificuldade de substituir contratos construídos ao longo de anos.

O cenário ainda pode mudar por meio de novas exceções ou de um acordo entre os dois governos. Até que isso aconteça, produtos equivalentes a 16,5% das exportações brasileiras ao mercado norte-americano continuarão expostos à cobrança combinada de 37,5%.

A prioridade para o Brasil será negociar a retirada ou redução das tarifas sem abandonar a estratégia de diversificação comercial. Para as empresas, o desafio será preservar caixa, empregos e clientes enquanto recalculam preços e procuram novos destinos para sua produção.


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