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Copom pode cortar a Selic, mas empréstimos e cartão continuarão caros: entenda

O Comitê de Política Monetária do Banco Central, o Copom, encerra nesta quarta-feira, 16 de setembro de 2026, uma reunião cercada pela expectativa de um novo corte da taxa básica de juros. A projeção predominante é de redução de 0,25 ponto percentual, levando a Selic dos atuais 14% para 13,75% ao ano.

O mercado de opções da B3 chegou a indicar aproximadamente 95% de probabilidade de um corte dessa magnitude. O cenário combina sinais de desaceleração do consumo, atividade econômica mais fraca e inflação menos pressionada em alguns segmentos. Ao mesmo tempo, petróleo acima de US$ 100, riscos climáticos, incertezas fiscais e expectativas de inflação ainda elevadas limitam a possibilidade de uma redução mais intensa.

Para consumidores endividados ou interessados em contratar um empréstimo, a possível queda pode parecer uma notícia capaz de baratear imediatamente o crédito. A transmissão, porém, não funciona dessa maneira.

Mesmo se o Copom confirmar o corte, cartão de crédito, cheque especial, empréstimo pessoal e parcelamentos continuarão apresentando juros elevados. Uma diminuição de 0,25 ponto na Selic é importante para indicar a direção da política monetária, mas pequena diante das taxas cobradas nas modalidades de maior risco.

Entender essa diferença ajuda o consumidor a não assumir uma dívida acreditando que o crédito já ficou barato.

O que o Copom deve decidir em setembro?

A Selic é a taxa básica de juros da economia brasileira. Ela influencia o custo do dinheiro entre instituições financeiras, a remuneração de diferentes investimentos e as condições gerais de financiamento do governo, das empresas e das famílias.

O Banco Central utiliza essa taxa principalmente para controlar a inflação. Quando os preços estão subindo acima do desejado, o Copom pode elevar os juros para reduzir o consumo e o crédito. Quando a inflação perde força e a atividade econômica desacelera, surge espaço para cortes.

A Selic começou 2026 em 15% ao ano. Depois de um período prolongado de juros elevados, o Copom iniciou uma sequência gradual de reduções. Na reunião de agosto, a taxa passou de 14,25% para 14%.

Para setembro, a expectativa é de outro corte de 0,25 ponto. Um levantamento da B3 sobre as Opções de Copom mostrou forte concentração das apostas nessa possibilidade.

Os dados recentes do varejo reforçam a percepção de atividade mais fraca. Em julho, as vendas do comércio varejista recuaram 0,8% em relação a junho. O consumo das famílias também perdeu força no segundo trimestre.

Na indústria, o índice de confiança da CNI permanece abaixo de 50 pontos há 21 meses. Quando comércio, indústria e consumo dão sinais de desaceleração, o Banco Central precisa avaliar se manter os juros muito elevados poderia produzir uma contração maior do que o necessário.

Isso não significa que o Copom tenha liberdade para reduzir a Selic rapidamente. As expectativas de inflação continuam acima da meta de 3%, enquanto o petróleo valorizado pode aumentar combustíveis, fretes e alimentos.

O cenário fiscal também influencia. Se investidores percebem risco elevado nas contas públicas, podem exigir juros maiores para financiar o governo. Essa pressão aparece na curva de juros e limita os efeitos de um corte da Selic.

Por isso, além da decisão, será necessário observar o comunicado. O Copom poderá confirmar a redução e, ao mesmo tempo, sinalizar uma pausa nas próximas reuniões.

Por que a Selic cai e o empréstimo continua caro?

A Selic é apenas um dos elementos usados na formação da taxa cobrada do consumidor. Entre a taxa básica e os juros finais existe o spread bancário.

O spread representa a diferença entre o custo de captação do dinheiro e a taxa cobrada no crédito. Ele inclui risco de inadimplência, despesas administrativas, impostos, depósitos compulsórios, margem da instituição e custo de recuperação de dívidas.

Imagine que a Selic caia de 14% para 13,75%. Essa redução representa 0,25 ponto percentual ao ano. Um empréstimo pessoal, porém, pode cobrar vários pontos percentuais ao mês. Comparada com o custo total dessa operação, a mudança da taxa básica é pequena.

A queda da Selic também não reduz automaticamente as parcelas de empréstimos contratados com taxa fixa. Se uma pessoa assinou um contrato a 3% ao mês, o banco continuará cobrando a taxa estabelecida até o fim da operação.

O efeito poderá aparecer em novos contratos, refinanciamentos ou produtos com taxa variável. Mesmo nesses casos, a instituição pode demorar para repassar o corte.

Os bancos consideram a perspectiva futura da Selic, e não apenas a taxa vigente. Se o mercado acreditar que o Copom fará apenas um corte e depois interromperá o ciclo, a redução oferecida ao consumidor tende a ser limitada.

Outro fator é a inadimplência. Quando muitas pessoas deixam de pagar, as instituições aumentam a estimativa de risco e incorporam esse custo aos novos contratos.

Os clientes não apresentam o mesmo perfil. Renda estável, histórico de pagamento, relacionamento bancário, garantias e comprometimento mensal podem alterar significativamente a taxa.

Essa é a razão pela qual duas pessoas solicitando o mesmo valor no mesmo banco podem receber propostas diferentes.

O Banco Central mantém uma ferramenta com as taxas praticadas por modalidade e instituição. Antes de contratar, o consumidor pode comparar as condições e verificar se a proposta está distante da média do mercado.

Por que o cartão de crédito demora ainda mais a acompanhar?

O rotativo do cartão é uma das modalidades mais caras porque reúne risco elevado, ausência de garantia e facilidade de utilização.

Quando o cliente paga apenas parte da fatura, o banco financia o saldo restante sem receber um bem como garantia. Diferentemente de um financiamento de imóvel ou veículo, não existe um ativo específico que possa ser retomado em caso de inadimplência.

O cartão também permite que o consumidor utilize o limite rapidamente, sem passar por uma nova análise a cada compra. Essa praticidade aumenta a exposição da instituição.

Mesmo com a limitação legal que impede que juros e encargos do rotativo e do parcelamento da fatura ultrapassem 100% do valor original não pago, o custo continua alto. Uma dívida de R$ 1.000 pode chegar a R$ 2.000.

O teto impede um crescimento indefinido, mas não transforma o rotativo em crédito barato. Ele deve ser utilizado apenas em uma emergência curta, enquanto o consumidor busca uma opção de menor custo.

A Selic poderia cair vários pontos e, ainda assim, o rotativo permaneceria caro porque grande parte da taxa está relacionada ao risco e ao spread, não apenas ao custo básico do dinheiro.

O cheque especial apresenta situação semelhante. O limite fica disponível para uso imediato e sem garantia específica. Embora tenha regras próprias, continua sendo uma solução cara para despesas de médio ou longo prazo.

A recomendação é evitar usar essas modalidades para complementar permanentemente o salário. Quando o orçamento depende todo mês do cartão ou do cheque especial, a dívida deixa de ser temporária e passa a fazer parte da renda.

Nesse cenário, um pequeno corte na Selic não resolve o problema. O consumidor precisa reorganizar os gastos e avaliar a troca da dívida por uma linha mais barata.

Quais modalidades podem ficar mais baratas primeiro?

Produtos de menor risco tendem a reagir antes. Empréstimos com garantia, crédito consignado, financiamento imobiliário e operações destinadas a empresas com bom histórico podem apresentar alguma redução gradual.

No consignado, as parcelas são descontadas diretamente do salário ou benefício. Essa estrutura diminui o risco de inadimplência e permite juros menores do que os do crédito pessoal sem garantia.

Mesmo assim, consignado não é dinheiro extra. A parcela compromete a renda antes que ela chegue à conta e pode dificultar o pagamento de despesas básicas.

Financiamentos de imóveis e veículos também possuem garantias. O preço desses contratos depende da Selic, da curva de juros de longo prazo, do risco do cliente, do prazo e das condições de mercado.

Uma queda isolada de 0,25 ponto pode produzir impacto pequeno nas parcelas. Uma sequência de cortes, acompanhada por inflação controlada e melhora das expectativas fiscais, teria efeito mais significativo.

Empresas também podem sentir mudanças antes das famílias em algumas linhas. Grandes companhias conseguem captar recursos no mercado de capitais e negociar com diferentes instituições.

Pequenas empresas, por outro lado, podem continuar enfrentando juros altos, principalmente se possuem pouco histórico, garantias limitadas ou faturamento instável.

O repasse ainda depende da concorrência. Quando diferentes bancos disputam bons clientes, existe maior incentivo para reduzir taxas. Consumidores que concentram todas as operações em uma única instituição podem deixar de encontrar propostas mais vantajosas.

A portabilidade de crédito permite transferir uma dívida para outra instituição que ofereça condição melhor. Antes da mudança, porém, é necessário comparar o Custo Efetivo Total, e não apenas a taxa anunciada.

O CET reúne juros, tarifas, seguros e outros encargos. Uma proposta com taxa aparentemente menor pode ficar mais cara quando todos os custos são incluídos.

O que o consumidor deve fazer depois do corte?

A primeira atitude é não interpretar uma possível redução da Selic como autorização para aumentar o endividamento. A taxa continuará elevada e o crédito ainda terá custo significativo.

Quem já possui dívida deve levantar saldo devedor, taxa, número de parcelas e Custo Efetivo Total. Com essas informações, será possível buscar renegociação ou portabilidade.

Priorize as modalidades mais caras, como rotativo e cheque especial. Um empréstimo pessoal pode ser usado para substituir uma dívida mais cara, mas apenas quando a nova taxa é realmente menor e o limite antigo deixa de ser utilizado.

Caso contrário, o consumidor corre o risco de ficar com duas dívidas: o empréstimo e uma nova fatura do cartão.

Quem pretende financiar um bem deve fazer simulações em várias instituições. Uma diferença pequena na taxa mensal pode representar milhares de reais em contratos longos.

Também é importante avaliar a entrada. Quanto maior o valor pago inicialmente, menor será o saldo financiado e a despesa com juros.

Investidores precisam considerar o outro lado. A queda da Selic reduz gradualmente a remuneração de aplicações pós-fixadas ligadas ao CDI, mas 13,75% ainda seria um patamar elevado.

Não é recomendável migrar para produtos arriscados apenas porque houve um corte de 0,25 ponto. A escolha deve considerar objetivos, prazo, liquidez e tolerância a oscilações.

O Copom pode começar a tornar o ambiente de crédito menos restritivo, mas o consumidor não verá uma transformação imediata. Cartão e empréstimos continuarão caros porque incorporam riscos e custos que vão além da Selic.

A queda só produzirá um alívio mais visível se for acompanhada por inflação controlada, redução da inadimplência, melhora fiscal e continuidade responsável do ciclo de cortes.

Fontes: Banco Central – comunicados do Copom, B3 – Opções de Copom e Banco Central – taxas de crédito.

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