A indústria brasileira completou em setembro de 2026 um período preocupante: são 21 meses consecutivos de falta de confiança entre os empresários do setor.
O Índice de Confiança do Empresário Industrial, o ICEI, recuou 1,4 ponto na passagem de agosto para setembro, caindo de 46,3 para 44,9 pontos.
Como resultados abaixo de 50 indicam falta de confiança, o novo número revela que a melhora observada no mês anterior não foi suficiente para alterar o cenário. O índice também permanece distante da média histórica de 53,3 pontos.
O pessimismo não representa apenas uma percepção abstrata. Quando empresários acreditam que a economia e suas empresas enfrentarão dificuldades, tendem a adiar investimentos, reduzir estoques, evitar contratações e atuar com maior cautela.
Se esse comportamento se prolonga, a falta de confiança pode ajudar a produzir exatamente o cenário que as empresas temem: menos atividade, menos emprego e menor crescimento.
Isso não significa que a indústria brasileira esteja paralisada ou que todas as empresas estejam demitindo. O indicador mede avaliações e expectativas. Entretanto, 21 meses em terreno negativo mostram que o problema deixou de ser uma oscilação pontual.
O que mostra o índice de confiança da indústria?
O ICEI é calculado pela Confederação Nacional da Indústria para acompanhar a avaliação dos empresários sobre as condições atuais e as expectativas para os seis meses seguintes.
A escala varia de zero a 100. Valores acima de 50 indicam confiança; abaixo desse nível, falta de confiança. Quanto mais distante da linha, maior a intensidade do movimento.
Em setembro, o indicador geral caiu para 44,9 pontos. O resultado representa o maior período contínuo de falta de confiança desde 2015 e 2016.
A pesquisa ouviu 1.186 empresas entre os dias 1º e 8 de setembro de 2026. Foram consultadas 475 pequenas, 441 médias e 270 grandes indústrias.
O Índice de Condições Atuais recuou 2,5 pontos, passando de 42,7 para 40,2. Esse componente mostra como os empresários avaliam o presente em comparação com os seis meses anteriores.
Dentro dele, a avaliação da economia brasileira caiu de 36,6 para 33 pontos. A avaliação das próprias empresas recuou de 45,7 para 43,8.
A confiança nas condições das empresas está menos deteriorada do que a percepção sobre a economia, mas permanece abaixo de 50. Isso significa que os empresários enxergam dificuldades no ambiente econômico e também dentro dos próprios negócios.
A queda alcançou diferentes componentes do levantamento, incluindo condições atuais e expectativas. Portanto, não se trata apenas de uma insatisfação com o momento presente. Existe preocupação com os meses seguintes.
A CNI informou que a indústria completou 21 meses sem confiança, apesar de oscilações positivas registradas ao longo de 2026.
Por que a confiança interfere nas decisões das empresas?
Uma indústria precisa decidir hoje quanto pretende produzir, contratar e investir no futuro. A compra de uma máquina, a expansão de uma fábrica ou o lançamento de um produto exigem planejamento e capital.
Se a empresa espera aumento das vendas, tende a ampliar estoques, encomendar equipamentos, contratar trabalhadores e buscar financiamento. Quando prevê demanda fraca, prefere conservar dinheiro.
Essa decisão é racional. Máquinas industriais podem custar milhões de reais e permanecer em operação durante décadas. Construir uma unidade produtiva exige obras, licenças, treinamento e contratação de fornecedores.
Se o empresário acreditar que a economia continuará fraca, poderá concluir que não haverá demanda suficiente para utilizar a nova capacidade.
Os juros elevados reforçam essa cautela. Uma empresa que financia equipamentos precisa gerar retorno superior ao custo do crédito. Com a Selic próxima de 14% e empréstimos empresariais acima dessa taxa, muitos projetos deixam de parecer viáveis.
O risco fiscal também influencia. Quando cresce a dúvida sobre as contas públicas, a curva de juros pode permanecer elevada mesmo que o Copom comece a cortar a Selic.
A incerteza tributária possui peso semelhante. Empresas precisam compreender como a reforma de impostos afetará custos, créditos, preços e fluxo de caixa. Regras pouco claras podem adiar decisões.
A demanda é outro fator. Se o varejo vende menos e as famílias evitam compras parceladas, a indústria recebe menos pedidos. Em julho, as vendas do comércio varejista caíram 0,8% frente a junho.
A alta do petróleo acrescenta preocupação. Combustíveis, fretes, energia, produtos químicos, plásticos e diferentes matérias-primas podem ficar mais caros.
A empresa industrial enfrenta, então, uma combinação difícil: custo de capital elevado, possibilidade de encarecimento de insumos e demanda menos dinâmica.
Como o pessimismo pode afetar empregos?
A primeira reação de muitas empresas não é demitir. Antes disso, elas podem suspender novas contratações, não substituir funcionários que saem e reduzir horas extras.
Esse processo não aparece imediatamente como uma grande onda de desemprego, mas diminui as oportunidades disponíveis para quem busca trabalho.
Projetos de expansão também geram empregos indiretos. Uma fábrica nova contrata construtoras, engenheiros, transportadores, fornecedores de equipamentos, empresas de tecnologia e prestadores de serviços.
Quando o investimento é adiado, essas vagas deixam de ser criadas.
Pequenas indústrias podem sentir o impacto com maior intensidade. Elas possuem menos acesso ao mercado de capitais, dependem mais do crédito bancário e contam com menor reserva financeira.
Uma grande empresa pode emitir títulos ou buscar recursos no exterior. Uma pequena fábrica frequentemente depende da própria geração de caixa ou de empréstimos mais caros.
Se as vendas caem, a empresa precisa ajustar a produção. A redução pode começar pelos turnos adicionais, contratos temporários e horas extras.
Caso o cenário persista, passam a existir riscos para postos permanentes. A demissão, porém, possui custos e pode dificultar a retomada futura. Por isso, muitas indústrias tentam manter trabalhadores qualificados enquanto aguardam melhora.
O problema de 21 meses de pessimismo é justamente a duração. Um trimestre fraco pode ser enfrentado com ajustes temporários. Quase dois anos de confiança negativa obrigam as empresas a rever decisões mais estruturais.
Os trabalhadores também reagem à incerteza. Quando existe medo de desemprego, famílias evitam compras grandes e aumentam a poupança preventiva. Essa cautela reduz a demanda por produtos industriais, criando um ciclo de desaceleração.
Por que a falta de investimento prejudica o futuro?
Investimento industrial não serve apenas para produzir mais. Ele permite modernizar máquinas, reduzir desperdícios, melhorar a segurança, utilizar energia de forma eficiente e aumentar a qualidade.
Quando a empresa adia a modernização, sua produtividade pode crescer menos. Produtos fabricados no Brasil ficam mais caros diante de concorrentes internacionais que investiram em automação e tecnologia.
A pesquisa da CNI sobre máquinas e equipamentos mostrou que a automatização ainda representa parcela pequena dos investimentos industriais. Grande parte das aquisições recentes está relacionada à mecanização tradicional.
Esse dado indica que a transformação tecnológica avança de forma gradual. Em um ambiente de pessimismo prolongado, ela pode ficar ainda mais lenta.
A baixa produtividade não prejudica apenas o empresário. Ela limita a capacidade de pagar salários maiores sem elevar os preços.
Empresas produtivas conseguem fabricar mais com a mesma quantidade de recursos. Parte desse ganho pode financiar melhores salários, pesquisa, expansão e preços competitivos.
A falta de investimento também compromete a transição energética. Projetos de eficiência, reaproveitamento de materiais e redução de emissões exigem capital.
Indústrias brasileiras podem perder oportunidades associadas à economia de baixo carbono se não conseguirem modernizar instalações.
Existe ainda o risco de perda de capacidade produtiva. Se uma empresa fecha uma unidade ou desativa uma linha, retomar a operação pode ser caro e demorado.
O país passa a depender mais de importações, ficando exposto ao câmbio, a conflitos internacionais e a problemas logísticos.
Por isso, o ICEI não deve ser interpretado apenas como uma pesquisa de humor. Ele antecipa decisões que influenciam a capacidade de crescimento nos anos seguintes.
O que poderia recuperar a confiança?
Uma redução gradual e sustentável dos juros pode melhorar o cenário. O efeito será maior se as taxas de longo prazo também caírem e o crédito empresarial ficar realmente mais barato.
Cortar a Selic sem controlar inflação e risco fiscal produziria resultado limitado. As empresas precisam acreditar que os juros permanecerão menores, não apenas que haverá uma redução isolada.
A estabilidade das regras também é fundamental. Empresas conseguem planejar quando conhecem impostos, obrigações, custos trabalhistas e normas ambientais.
Isso não significa ausência de mudanças. Reformas podem ser necessárias, mas precisam ser implementadas com clareza e prazos adequados.
A retomada do consumo ajudaria a preencher a capacidade das fábricas. Porém, estimular compras por meio de endividamento excessivo criaria um alívio curto e novos problemas depois.
A expansão mais sustentável depende de renda, produtividade, crédito responsável e confiança.
Investimentos públicos em infraestrutura podem reduzir custos de transporte, energia e comunicação. Estradas, ferrovias, portos e redes elétricas eficientes aumentam a competitividade industrial.
A indústria também precisa investir em qualificação. A modernização das fábricas exige trabalhadores preparados para lidar com equipamentos digitais, manutenção avançada, dados e automação.
Os 21 meses de pessimismo não significam que uma crise industrial seja inevitável. O indicador funciona como um alerta.
Se a confiança permanecer baixa, a ameaça aos empregos e investimentos aumentará. Se o ambiente econômico melhorar e as empresas voltarem a enxergar demanda e segurança, projetos adiados poderão ser retomados.
O ponto central é que a indústria toma decisões olhando vários anos à frente. Recuperar a confiança exige mais do que um único dado positivo: requer estabilidade, crédito viável, demanda e regras que permitam planejar.
Fontes: CNI – ICEI de setembro de 2026 e Portal da Indústria – resultado detalhado.










